Ttulo: Um marido para Ophelia.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1985.
Ttulo Original: "Money, Magic and Marriage".
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Miriam Tavares.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.

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Um marido para Ophelia
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Ttulo original:
"Money, Magic and Marriage"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1980
Traduo: Rachel Shwartz
Copyright para a lngua portuguesa: 1985 Abril S. A. Cultural'- So Paulo
Esta obra foi composta na Linoart S. A. e impressa na Editora Parma Ltda.    CAPTULO I
1898
com um sorriso de triunfo, o coronel Ashurst pousou na mesa a carta que estava lendo.
- Consegui! - exclamou, exultante.
Sentada do lado oposto, Ophelia, sua filha, olhou-o surpresa.
- No sabia que tinha um cavalo no preo esta semana, papai.
- Desta vez no se trata de cavalos - replicou o coronel, em tom enigmtico. -  algo bem mais importante.
Ophelia ficou aguardando.
Conhecia o pai. Ele gostava de fazer um certo suspense, mas, a julgar pela expresso de seu rosto, devia ter uma notcia realmente boa para lhe contar.
O coronel Ashurst ainda era um homem muito bem-apessoado e costumava atrair a ateno das mulheres.
Ao observar-lhe a fisionomia subitamente remoada, Ophelia lembrou-se das palavras da me, ditas num tom suave e jovial:
- Cheguei  Inglaterra imaginando que os ingleses fossem bonitos, mas, quando encontrei seu pai, achei que superava todas as expectativas!
- Como o conheceu, mame?
- ; Assim que cheguei dos Estados Unidos, fui convidada para o baile de abertura da temporada de caa. Ah, ainda me lembro como fiquei deslumbrada com os trajes 
dos cavalheiros, com suas casacas elegantes de lapelas coloridas, indicando a qual dos diversos grupos pertenciam. A bem da verdade, me espantei um pouco com o barulho 
que faziam.
Ophelia rira.
Embora nunca tivesse comparecido a um desses bailes, j ouvira muitos comentrios de que, s primeiras horas da madrugada, os jogos, a polca e o galope tornavam-se 
um tanto desenfreados.
- Mas, afinal, a senhora se divertiu?
- Muitssimo! Sabe, minha filha, no momento em que conheci seu pai, senti que alguma coisa diferente acontecia comigo. Jamais imaginei que me apaixonaria por um 
ingls.
- E foi to ruim assim?
- Meus pais, pelo menos, acharam. Viajamos para a Inglaterra porque tinham grande curiosidade de conhecer a terra de seus ancestrais, porm jamais cogitaram a possibilidade 
de me deixar aqui. Na verdade, fizeram de tudo para me convencer a voltar para os Estados Unidos com eles.
- Imagino que, depois de se apaixonar por papai, a senhora nem quis ouvir falar no assunto, no ? - conclura Ophelia, que j escutara aquela histria antes.
- Seu pai sempre diz que nunca concordaria com a minha partida e que, se eu tentasse, me raptaria e me obrigaria a casar com ele, mesmo sob protestos.
A atitude era bem tpica do pai, pensara Ophelia. Ele sabia como conseguir o que desejava. Queria sempre ser vitorioso. Por isso, alis, fora um excelente soldado 
na juventude e tornara-se agora um bem-sucedido proprietrio de cavalos de corrida.
Mais uma vez ocorreu a Ophelia que a razo da alegria do pai s poderia estar ligada a um de seus cavalos.
Finalmente, ele comeou a se abrir:
- Voc sabe, Ophelia, que sempre tive grandes ambies para voc.
- Que tipo de "ambies", papai? - perguntou a jovem, sem entender onde ele queria chegar.
Ao contrrio da maioria dos pais ingleses, que no se preocupavam muito com a educao de suas filhas, o coronel procurara dar a Ophelia uma formao esmerada.
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Ela sempre acreditara que isso se devia ao fato de ter sido filha nica.
Embora no admitisse, o coronel ficara extremamente desapontado por no ter tido um filho homem, que continuasse o nome pertencente  famlia h mais de quatrocentos 
anos.
Ento, como uma forma de compensao, preparara Ophelia para destacar-se em vrias atividades tradicionalmente masculinas.
Sob a orientao paterna, tornara-se no somente uma excelente amazona, como tambm uma exmia atiradora, tendo, nas caadas, uma mira infalvel.
Apesar de no ser de bom-tom participar das caadas quando o pai tinha convidados, ele sempre dava um jeito de combinar uma especial para ela, da qual, alm dos 
dois, participavam o administrador e um de seus velhos e fiis companheiros.
Muitas vezes, quando conseguia abater a longa distncia um faiso ou uma perdiz, Ophelia percebia entre os mais velhos um certo despeito e achava graa.
Alm dessas atividades, ela tivera os mais bem-conceituados preceptores em matrias consideradas como fundamentais para os filhos vares de qualquer homem ilustre.
Em funo disso, aprendera grego e latim, e o pai algumas vezes lamentava-se por ela no poder frequentar Oxford, onde, certamente, se sairia muito bem.
Porm, quando em certa ocasio lhe contara que havia uma faculdade para moas, o pai a surpreendera, alegando que a filha dele, precisava manter-se feminina.
No deixava de ser uma contradio, mas ela acabara correspondendo exatamente ao que o coronel esperava. Era inteligente, astuta e... extremamente feminina.
com seus cabelos cor de trigo, provavelmente herdados de algum distante ancestral sueco, emoldurando o rosto de traos perfeitos, e sua silhueta esguia e bem-feita, 
devido aos constantes exerccios fsicos, ela no poderia estar mais linda
do que naquele momento em que sorvia, ansiosa, mais um gole de seu caf da manh. Os belos olhos violeta possuam a propriedade de tornar-se mais ou menos escuros, 
de acordo com seu estado de esprito.
Ophelia notou que o pai a observava de maneira avaliadora, antes de explicar:
- Minhas ambies, querida, dizem respeito a seu casamento.
Surpresa, arregalou os olhos. Se ele tivesse jogado uma bomba sobre a mesa talvez no a espantasse tanto.
- Meu... casamento? Ora, papai, no estou entendendo absolutamente nada!
- De fato, no conversamos a esse respeito antes. Afinal, considero-a muito jovem e planejava que passasse uma temporada em Londres no prximo ano, quando naturalmente 
seria apresentada  corte. Entretanto, aconteceu uma coisa que me fez mudar de planos.
- O que houve? - perguntou Ophelia, ainda meio atordoada pelas palavras do pai.
Depois da morte da me, achava natural que o coronel Ashurst cuidasse de cada detalhe de sua vida, mas a possibilidade de casamento era coisa que nem entrava em 
cogitao no momento.
Aos dezessete anos, ele a julgara muito jovem para debutar e queria que o fizesse em abril do ano seguinte, quando estaria com dezoito anos e meio.
Constantemente envolvida pelas vrias atividades de Worcestershire, Ophelia no tinha pressa alguma em comear a roda-viva de bailes, recepes e outros eventos 
que faziam parte de um debut. Apesar disso, de vez em quando pegava-se sonhando com essa nova fase de sua vida.
- Creio que j lhe falei sobre minha amizade com o duque de Gorleston, no ?
- Falou, sim, papai. Lembro-me de que contou que o havia encontrado h alguns anos em Epsom e lhe sugerira
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que apostasse em seu cavalo, ainda desconhecido, e tambm de como ele lhe ficou grato quando o cavalo ganhou!
- Isso mesmo. Depois daquele dia, sempre que nos encontrvamos numa corrida de cavalos, o duque aproximava-se de mim e perguntava: "Como , coronel, tem uma boa 
sugesto para mim hoje? Confio em sua inspirao para voltar para casa com algum dinheiro no bolso, hein! "
- Garanto que nunca o decepcionou.
- Raramente... Por causa disso, tornamo-nos bons amigos, o que muito me honrou.
- Mas o que isso tem a ver comigo?
- Embora eu sempre tenha considerado que o esporte iguala todos os homens, os duques, querida, indiscutivelmente constituem uma categoria  parte. Digo-lhe isto 
por experincia prpria.
- Creio que no entendi - disse Ophelia, cada vez mais intrigada com o que se passava na cabea do velho.
O coronel tomou um gole de caf antes de responder.
- vou lhe explicar porque tem muito a ver com a notcia que lhe darei daqui a pouco.
- Est me deixando curiosa, papai.
- Pois bem, como voc sabe, os Ashurst so bastante conhecidos em Worcestershire. Nossa famlia vive nesta mesma propriedade h geraes. Tanto meu av quanto meu 
pai tambm serviram no corpo de guarda e temos sido destacados para vrios postos oficiais no condado, com exceo de chefe da guarda.
- Inclusive, sempre me perguntei por que esse posto nunca lhe foi oferecido.
- A resposta  muito simples: no sou suficientemente importante! O chefe da guarda  o representante de Sua Majestade, a rainha. Embora tenhamos muitas razes para 
nos orgulharmos de nossa linhagem e sejamos tratados como fidalgos, no somos, no sentido estrito da palavra, aristocratas.
Qphelia soltou uma pequena risada.
- E desde quando isso o preocupa?
- No que me diz respeito, pouco me importo...
O coronel fez uma ligeira pausa, olhando-a significativamente e dando a entender que sua preocupao se referia  filha.
Ento continuou: 
- Meu pai no era rico e me casei com sua me por amor. Algum tempo depois de t-la pedido em casamento, porm, fiquei sabendo que, pelos padres britnicos, ela 
era herdeira de uma fortuna considervel.
- Mame me contou que o senhor quase desmaiou de susto ao descobrir.
-  verdade, minha filha.
- Ela tambm disse que, como o senhor era muito orgulhoso, foi difcil convenc-lo de que no seria humilhante sua esposa possuir mais dinheiro.
- Eu era muito tolo na poca. No entanto, quer ela fosse rica como Creso, ou completamente sem vintm, no faria diferena alguma porque nos amvamos.
Ophelia bateu palmas.
- Que romntico! Sempre desejei conhecer algum como o senhor e me apaixonar da mesma maneira.
O coronel olhou pensativamente para a carta sobre a mesa e disse:
- Talvez seja pedir muito, minha filha. Creio que amor  primeira vista  coisa que ocorre uma vez em cada um milho de casos. Por isso, sempre fui extremamente 
grato de que tivesse acontecido comigo.
Durante alguns instantes, o coronel ficou com o olhar perdido num ponto imaginrio, como se a memria o tivesse transportado de volta ao passado e  felicidade que 
conhecera ao lado da esposa americana.
- Continue o que estava dizendo, papai.
com um ligeiro sobressalto, o coronel voltou os olhos para ela e prosseguiu:
- Como sabe, embora sua me e eu estivssemos numa tima situao econmica ao nos casarmos, tornamo-nos 10
realmente ricos h cinco anos, quando foram descobertos os poos de petrleo de seu av americano.
- Ainda me lembro da euforia em que ficamos quando chegou a carta comunicando que mame estava multimilionria. Mas, passada aquela excitao inicial, no houve 
qualquer modificao em nossas vidas.
- Sabe por qu, querida? Porque tnhamos tudo o que desejvamos, ou seja, um ao outro e voc. Assim, alm de providenciarmos a instalao de alguns banheiros na 
casa, a extravagncia que fizemos com o dinheiro de sua me foi comprar cavalos.
- O Haras Ashurst agora  famoso - elogiou a jovem, com uma ligeira ironia.
- E tinha de ser! - inflamou-se o coronel. - Sou um estudioso do assunto h anos; comprei os melhores cavalos; cuidei pessoalmente de sua criao e treinamento; 
o empreendimento s podia ter dado certo!
Ophelia sabia que o assunto era o ponto fraco do pai, por isso apressou-se em comentar:
- Sem dvida, ningum teria se sado to bem. Todos so unnimes em reconhecer que o senhor tem mais conhecimentos a respeito de cavalos do que qualquer outro proprietrio 
do Jockey Club.
- Como sabe disso?
- Li no Sporting Times.
- Devia ter-me mostrado.  o tipo de comentrio que qualquer homem gosta que faam a seu respeito.
Percebendo que a conversa havia sido desviada de seu rumo original, o coronel procurou retomar o assunto, dizendo num tom diferente:
- Mas estvamos falando sobre voc, querida. Depois que sua me faleceu, compreendi que teria de assumir O papel de pai e me e comecei a pensar seriamente sobre 
seu futuro.
Ophelia franziu a testa, e sua expresso tornou-se novamente ansiosa.
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- Toda mulher deseja se casar e todo pai que ama sua filha deseja v-la casada com um homem que no somente a faa feliz, mas que tambm lhe d uma posio de destaque 
e respeito na sociedade.
O rumo da discusso comeava a deix-la perturbada.
No estava gostando do jeito que o pai lhe falava, como se se sentisse na obrigao de arrumar um "bom" partido para ela.
Embora no se lembrasse de t-lo enfrentado uma vez sequer, no que dizia respeito ao seu casamento, estava decidida que a escolha deveria ser sua e no dele.
- Est rodeando demais para chegar onde deseja, papai. Por acaso, pretende insinuar que j escolheu um marido para mim?
Como estivesse nervosa por temer a resposta, a pergunta foi feita num tom de voz mais alto do que o normal e pareceu ecoar por toda a sala de refeies.
Seus olhares se encontraram e, imediatamente, Ophelia soube qual seria a resposta.
-  isso mesmo. Decidi que minha filha deve se casar com o novo duque de Gorleston!
Ophelia no conseguiu conter uma exclamao de surpresa:
- O novo duque? Nunca imaginei que o conhecesse!
- Ele chegou da ndia pouco antes das Corridas de Goodwood - esclareceu o coronel. - Algum deve ter-lhe falado que eu era amigo do pai dele, por isso veio cumprimentarme 
efusivamente.
O coronel sorriu como se a lembrana o agradasse e prosseguiu:
- Desde ento j nos encontramos em vrias ocasies, mas somente quando conversvamos em Doncaster tomei conhecimento da situao em que ele se encontra agora que 
herdou o ttulo e as propriedades do pai.
- E que situao  essa?
- Precisa de dinheiro com urgncia.
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Ophelia disse a si mesma que deveria imaginar aonde levaria aquela conversa, mas ditas assim, cruamente, as palavras do pai a chocaram.
Sempre soubera que a fortuna do pai a colocava numa posio diferenciada com relao a outras jovens de sua idade, o que, de certa forma, chegava a se constituir 
numa barreira que s vezes achava difcil transpor.
Ficava tremendamente embaraada quando, ao entrar nos sales das poucas festas que frequentara nos ltimos anos, ouvia circular, sobretudo entre as vivas presentes, 
o comentrio:
- Naturalmente ela  bastante rica!
Suas prprias amigas falavam abertamente a respeito:
- No  justo, Ophelia - dissera-lhe uma delas havia poucas semanas -, que voc alm de mais bonita do que qualquer uma de ns, ainda seja to rica.
- Eis a duas coisas que no posso mudar.
- Sei disso - comentara a amiga -, da ser mais revoltante ainda!
Ambas haviam rido, mas Ophelia sentira uma pontinha de inveja no comentrio.
- Nunca se aborrea por ter dinheiro, meu amor - recomendava-lhe a me. - Procure apenas ser mais bondosa, mais generosa e mais compreensiva do que aqueles que no 
o tm.
- No entendo, mame...
- Ento, vou lhe explicar. Como voc  rica, as pessoas sempre sentiro um certo cime, e talvez muitas at procurem tirar vantagens de sua amizade. No permita, 
porm, que isso a faa assumir uma atitude de cinismo em relao aos outros e nem se torne amarga se alguma vez for enganada.
- Claro que no - murmurara, sem entender direito a profundidade do conselho.
- Quero que perceba que  um privilgio poder ajudar as pessoas. Mas mais importante do que possuir dinheiro  saber dar solidariedade, compreenso e amor. Esses 
so os
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valores que realmente contam na vida. O fato de seu av ter trabalhado duro e ter tido a sorte de conseguir acumular uma fortuna no  mrito algum seu, mas uma 
responsabilidade que voc no pode ignorar.
- Eu compreendo, mezinha - concordara, sentindo crescer ainda mais sua admirao pela me.
- No  fcil ser rico, minha filha, embora parea ser o que as pessoas mais desejam na vida. S lhe digo que confie em seu corao.
- Confie em meu corao?
- Sim, minha filha. Seu corao lhe dir se as pessoas que se acercam de voc so sinceras e bem-intencionadas ou falsas e ms. S desejo que nunca se esquea de 
que a coisa mais valiosa do mundo no  o dinheiro, mas o amor.
As palavras da me vinham-lhe agora  lembrana e pareciam mais sbias do que nunca.
Procurando controlar-se ao mximo, Ophelia perguntou baixinho:
- Papai, est me pedindo seriamente que me case com um homem que nem conheo? No posso acreditar que tenha feito uma sugesto to ultrajante ao prprio duque.
Sentindo um certo embarao, o coronel procurou se explicar:
- No  bem assim. Deixe-me contar o que aconteceu.
- Vamos l! Sinto-me ansiosa para ouvir.
- Encontrei o duque no Jockey Club, e ele se mostrou contente por me ver. Como esteve fora por quase sete anos, no conhece muita gente na Inglaterra.
- Pelo que sei, ele prestava servios em seu regimento na ndia.
- Exatamente! Creio que cumpriu misses relevantes l e foi muito condecorado.
Havia uma indiscutvel nota de prazer na voz do coronel, pois tudo o que se relacionasse ao exrcito assumia um significado quase que pessoal para ele.
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Perguntei ao duque que cavalos tinha em treinamento
e ele me respondeu:
- A bem da verdade, coronel Ashurst, precisava mesmo lhe falar a esse respeito, pois necessito de seus conselhos.
- Estou  disposio para ajud-lo naquilo que estiver ao meu alcance.
- Para ser bem objetivo, no disponho de condies para manter o estbulo de meu pai e gostaria que me aconselhasse quanto  melhor maneira de dispor dele.
- Voc nem imagina, Ophelia, como fiquei perplexo! Pareceu-me chocante a ideia de no ver mais os magnficos cavalos dos Gorleston participando das corridas tradicionais!
Ele deu um suspiro profundo e continuou:
- O falecido duque orgulhava-se tanto de seu estbulo! Quando ganhava uma corrida, ficava to excitado como um colegial. Dava prazer v-lo.
- O senhor sabia que ele estava em dificuldades financeiras antes de falecer, papai?
O coronel ficou meio embaraado e, antes que respondesse qualquer coisa, Ophelia antecipou-se:
- O senhor sabia e o ajudou!
- Era mais fcil para mim emprestar-lhe algum dinheiro do que v-lo recorrer a agiotas - respondeu o coronel, justificando-se.
- O senhor fez bem. Tenho certeza de que o alegrou ajudar um amigo.
Ophelia sabia que o pai sempre fora generoso com os amigos. Portanto, devia ter sido motivo de grande satisfao ajudar algum por quem guardava tanta amizade e 
admirao. Alm disso, ela ainda tinha nos ouvidos as palavras da me, num tom bem-humorado:
- Como vai constatar por si mesma quando crescer, todos os ingleses so esnobes, querida.
Por isso, Ophelia no tinha dvidas de que o pai ficara encantado de poder auxiliar uma pessoa importante como o duque de Gorleston.
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- Por favor, continue o que estava dizendo, papai.
- Procuramos no clube um lugar tranquilo, onde pudssemos conversar, e ento o duque se abriu comigo. Contou-me tudo a respeito da situao que encontrou em casa 
ao voltar. O pai contrara uma dvida considervel e, o que  pior, a propriedade havia sido completamente negligenciada. H anos a casa est precisando de muitos 
reparos.
- O senhor me disse que  uma das casas mais lindas da Inglaterra...
- E  mesmo. Estive l apenas uma vez e fiquei to impressionado com seu acervo que nem reparei se havia goteiras no teto, ou se o telhado desmoronava.
- Uma vez que a moblia e os quadros so to valiosos, por que o duque no os vende?
- Porque so vinculados - replicou o coronel. - Nas grandes famlias, os objetos, a casa, a propriedade no pertencem a ningum. Esto vinculados de gerao a gerao, 
do passado ao futuro. Existem curadores encarregados de garantir que o patrimnio seja transferido de pai para filho, sem espoliaes.
Ophelia no proferiu uma palavra. Estava comeando a entender exatamente o que o pai tinha em mente. Ele lhe lanou um olhar inquiridor e prosseguiu:
- Conversei bastante com o duque naquele dia, mas aparentemente o assunto no se esgotou, pois ele me pediu para que o encontrasse em Londres, depois que as corridas 
tivessem terminado.
- E o senhor esteve novamente com ele?
- Almoamos juntos e ele me disse claramente que no tinha mais condies de abrir a casa de Gorleston em Park Lane. De fato, ele estava fechando completamente vrias 
outras de suas casas.
Houve um breve silncio, que foi quebrado pelo prprio coronel:
- Depois de me contar exatamente qual era sua situao, o duque concluiu, dizendo: "Como o senhor era amigo
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de meu pai, pensei que pudesse me ajudar a tomar as providncias necessrias, sem criar qualquer publicidade nos jornais ou crticas, condenando meu pai por ter 
deixado as coisas chegarem a esse ponto".
Ophelia esboou um sorriso e o pai acrescentou:
- O duque ganhou meu respeito com essas palavras, minha filha. Se eu tivesse um filho homem e estivesse em situao semelhante, era exatamente assim que gostaria 
que meu filho agisse.
com o dinheiro que possuam era impossvel imaginar o pai em situao semelhante. De qualquer forma, Ophelia no teceu comentrio algum e, inquieta, esperou que 
o coronel, aos poucos, fosse revelando o que pretendia.
- Foi ento que eu disse ao duque que tinha uma ideia melhor do que a de vender as coisas que, por serem parte da tradio de sua famlia, possuam um grande significado 
para ele. E lhe sugeri que seguisse o exemplo de vrias outras famlias aristocrticas, casando-se com uma herdeira rica, que lhe possibilitasse preservar o prestgio 
dos Gorleston e manter intacto seu valioso patrimnio.
Ophelia susteve a respirao ansiosa.
- O que foi que o duque respondeu?,
- Creio que essa possibilidade jamais lhe ocorrera como meio de sair das dificuldades, pois ele se surpreendeu.
- Sim, mas o que ele disse?
- Ele foi at meio rude e falou que jamais se transformaria num caa-dotes!
- E o senhor?
- Eu disse que o compreendia e o aconselhei a pensar melhor. Quando afirmei que um bom casamento seria uma sada sensata e honrosa de arcar com suas obrigaes e 
responsabilidades, o duque manteve-se calado. Ento procurei persuadi-lo:
- No deve pensar apenas em si mesmo ou em seus sentimentos. Pense em como vo sofrer todos os que sempre dependeram de seu pai e de seu av.
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A expresso sombria do rosto do duque demonstrara o quanto esse assunto o preocupava.
- Pense tambm nos orfanatos e asilos mantidos por sua famlia, nos inmeros empregados que h geraes trabalham para os Gorleston...
- Tenho plena conscincia de tudo o que est me dizendo
- interrompera o duque. - No entanto, acho repulsiva a ideia de escolher uma esposa porque ela tem dinheiro e ambiciona somente meu ttulo!  degradante!
- As palavras dele foram um tanto speras - enfatizou o coronel, fitando a filha. - Contudo, entendi o que se passava com ele. Homem muito atraente, deve ter tido 
muitas mulheres em sua vida, que o amaram por ele mesmo e no porque era filho de um duque.
- De qualquer maneira, ele era o herdeiro do ttulo.
- Na realidade, a possibilidade de vir a suceder o pai aconteceu apenas h um ano.
- Como assim?
- Ele tinha um irmo mais velho.
- Creio que o senhor nunca me falou dele.
- No cheguei a conhec-lo. Era muito doente e passou a vida percorrendo estaes de guas na Europa.
- Do que sofria?
- No sei. O velho duque nunca falava a respeito e no conheo ningum que tivesse convivido com o falecido marqus.
- Ele morreu?
O coronel assentiu com a cabea.
- S sei que, quando encontrei o velho duque, depois da morte do primognito, ele estava satisfeito que seu segundo filho, Sandor, fosse o herdeiro.
- Nessas circunstncias, no d para saber se o tal do Sandor ficou contente ou triste com a herana.
- O velho duque me disse que ele jamais sonhou ser o herdeiro, nem gozou de qualquer privilgio especial por ser nobre.
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- Por qu?
Isso acontece com muita frequncia na aristocracia.
Toda a ateno  voltada para o herdeiro, e os demais filhos tm de aprender a sobreviver com muito pouco dinheiro e ateno.
- Isso no  justo!
-  o que sua me costumava dizer, mas  esse o modo de vida dos ingleses e no h nada que possamos fazer para mud-lo.
Ophelia ponderou consigo mesma que, se um dia viesse a ter filhos, faria questo de que sua fortuna fosse repartida igualmente entre eles.
Ocorreu-lhe ento que, se se casasse com um ingls, o controle de sua fortuna passaria para o marido, e ela no teria qualquer voz ativa quanto ao destino que quisesse 
lhe dar.
Nunca antes lhe pareceu to claro como, para um homem pobre, devia ser atraente a perspectiva de despos-la, especialmente quando se tratava de algum to necessitado 
de dinheiro, no apenas para si mesmo, como para inmeras pessoas ao seu redor.
- O que disse ao duque a meu respeito, papai? - perguntou, com um ar desafiador.
- Disse-lhe que no estava absolutamente sugerindo que sasse por a  caa de uma herdeira rica e que compreendia que a simples ideia lhe fosse repulsiva, mas que 
gostaria de apresent-lo a voc.
- Como ele reagiu?
- Olhou-me muito surpreso, pois no imaginava que eu tivesse uma filha. Sabia apenas que eu era vivo.
- E o que disse a ele sobre mim?
- Nada! Apenas que ainda no havia debutado e que fora criada na tranquilidade do campo. Ah, disse-lhe tambm que havia herdado uma fortuna considervel e que seu 
av americano era conhecido, antes de morrer, como o "Rei do Petrleo do Texas".
- E da?
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- Sugeri-lhe que, depois de pensar bem no assunto, me convidasse a levar minha filha como hspede a Gore. Poderia nos receber juntamente com outros convidados e 
ento julgar por si mesmo se minha ideia resolveria ou no seus problemas.
- Qual foi a resposta do duque? - perguntou Ophelia, sabendo que seu destino em muito dependeria disso.
- Disse que pensaria seriamente no assunto e que me escreveria quando chegasse a uma concluso. Perguntei-lhe ento se estaria voltando ao campo.
- Quero ver Gore mais uma vez e fazer uma avaliao mais profunda do estado de coisas l - dissera ele num tom categrico. - Enquanto isso, peo-lhe que considere 
tudo o que contei como extremamente confidencial.
- Naturalmente, duque - repliquei.
Ophelia abaixou os olhos, no conseguindo esconder a aflio que parecia sufoc-la.
- Imagino ento que esta era a carta que aguardava receber do duque.
- De fato, Ophelia. O duque nos convida para uma caada que est organizando para dentro de duas semanas.
- Uma caada!
- So famosas as caadas em Gore. O prncipe de Gales era assduo frequentador na poca do velho duque e no vou ficar nada surpreso se o jovem duque tiver sido 
pressionado a convidar Sua Alteza Real para a abertura da temporada de faises. "
- Mas como o duque vai arcar com as despesas de um evento desse nvel? 
- Ora, minha filha, h certas obrigaes sociais das quais no se pode escapar, alm de haver tambm outras implicaes. Os faises, por exemplo, so especialmente 
criados para essa temporada de caa. Os criadores dedicaram-se o vero inteiro a essa finalidade, devendo os faises ter sido soltos no bosque h uns dois meses.
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O coronel fez uma pausa para avaliar se a filha estava acompanhando sua linha de raciocnio.
- Depois de todo esse trabalho, seria um desperdcio no ca-los, especialmente considerando-se o alto custo envolvido na criao dessas aves.
- Compreendo - respondeu Ophelia, lacnica, com o pensamento'voltado para suas inesperadas preocupaes.
- Voc ter a oportunidade de assistir, em Gore, a uma das mais belas caadas do condado. No me acanho em admitir que estou ansioso para que chegue logo. Desejaria 
apenas que voc tambm pudesse atirar e mostrar ao duque como manuseia bem uma arma.
- Ser que ele apreciaria essa qualidade?
A pergunta de Ophelia foi indubitavelmente sarcstica, provocando uma reao de desagrado no coronel.
- Ser to, detestvel assim a ideia de se unir ao homem que, como seu pai, sei que  ideal para voc?
- , sim! Honestamente, papai, sinto-me como se estivesse sendo vendida no balco de uma loja e acho a situao tremendamente humilhante!
O coronel Ashurst fez um gesto desolado com a mo.
- Voc sabe muito bem que no  assim que quero que se sinta! Entendo perfeitamente que voc gostaria de escolher seu prprio marido e estar apaixonada por ele, 
como sua me e eu estivemos. Mas, como  uma jovem inteligente, j deve ter se perguntado se isso seria possvel...
- O que o senhor quer insinuar?
- Como voc  muito rica, dificilmente um cavalheiro britnico de situao mdia a pedir em casamento.
Se a inteno do coronel era alarm-la, ele conseguiu.
- Mas se eu me apaixonasse por ele...
- Ele preferiria fugir para lguas de distncia ao invs de se apaixonar por voc.
Os olhos de Ophelia pareciam agora maiores do que nunca e estavam marejados de lgrimas.
- Quando conhecem uma mulher muito rica, por mais
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atraente que ela seja, tomam todo cuidado para no se envolverem, temendo ser atrados para o casamento.
- Mas o senhor se casou com mame.
- Voc sabe muito bem que me apaixonei antes de saber que ela era herdeira de uma fortuna. Para mim, quando a conheci, ela no passava de uma jovem comum, naturalmente 
proveniente de uma famlia bem de vida, que dispunha de condies de viajar.
Ophelia levantou-se da mesa e atravessou a sala, caminhando com muita graa, em seu traje de montaria, at a janela. A claridade fez com que seus cabelos se tornassem 
mais brilhantes ainda, contrastando com a tonalidade escura de seu casaco e dando-lhe uma aparncia quase irreal.
O pai fitou-a com uma expresso de dor nos olhos. Sabia como a filha era sensvel e lamentava que, s vezes, a vida fosse implacvel com esse tipo de pessoa.
Conhecera muitos caa-dotes, muitos aproveitadores que saam  cata de mulheres ricas, pouco se importando com a idade que tivessem. H muitos anos fizera um juramento 
a si mesmo de que lutaria com todas as suas foras para impedir que sua filha fosse envolvida por um desses exploradores inescrupulosos.
Porm, no ignorava que a tarefa seria difcil.
O jovem duque, independente de seu ttulo, era o tipo de homem que o coronel gostaria de ter como genro, pelas qualidades morais que em to pouco tempo havia demonstrado. 
Aquele casamento, portanto, seria a soluo para ambos os problemas. Restava-lhe to-somente, alm de persuadir o duque a aceitar sua sugesto, convencer a prpria 
filha, o que no seria fcil.
Como Ophelia se mantivesse calada, depois de alguns minutos, o coronel quebrou o silncio:
- Quando conhecer o duque, compreender o porqu de eu consider-lo o tipo certo de marido para voc. Ele  um homem experiente, conheceu os dois lados da vida, 
o bom e

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o mau, e, alm de comandar homens, aprendeu, o que  mais importante, a comandar a si mesmo.
Ophelia continuou calada e ele prosseguiu:
- Apenas estou lhe pedindo, minha filha, que o conhea e tome a deciso por si mesma. Mas, como j lhe disse francamente, voc no tem grande escolha. De fato, creio 
que preferia v-la morta do que casada com um oportunista qualquer que se aproximasse com palavras doces, sequioso para pr as mos em seu dinheiro.
O coronel falou de maneira to violenta que Ophelia se voltou, chocada. Entretanto, ao ver a expresso sombria de seu rosto, deixou a janela e caminhou at ele, 
passando-lhe a mo pelos ombros.
- O senhor est se preocupando demais, papai  disse-lhe, com meiguice. - Por que no esquecemos essa ideia de eu me casar? Estou feliz de viver com o senhor e, se 
sasse daqui, o senhor sentiria minha falta.
Como o pai no retrucasse, ela abaixou a cabea e encostou o rosto no dele.
- Esqueceu de nossos planos de caarmos juntos nesta temporada? O senhor sempre disse que no havia companhia melhor do que a minha!
O coronel sorriu e colocou a mo sobre a da filha, dando-lhe um tapinha afetuoso.
-  claro que, quando no morar mais aqui, vou sentir muito sua falta e a casa vai ficar vazia. Mas, querida, eu no vou viver para sempre e quero que tenha algum 
para proteg-la. Toda mulher precisa de um lar, de marido, de filhos...
Ophelia teve um ligeiro estremecimento, como se a perspectiva a assustasse.
- Confie em mim, minha filha. Deixe-me fazer as coisas  minha moda. Se eu perder a parada, aceitarei a derrota, embora decepcionado de no ser o vencedor.
Ophelia riu, mas o coronel percebeu que era um riso triste.
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- Confie em mim - insistiu.
Tirando o brao do ombro do pai, Ophelia endireitou o corpo, dizendo:
- Muito bem, papai. Concordo em ir com o senhor a Gore e conhecer o duque. Mas quero que me prometa, por tudo o que lhe  mais sagrado, que no vai me obrigar a 
casar com quem quer que seja a menos que eu tambm o queira.
Fez-se um silncio pesado e ela pensou que o pai fosse recomear a discusso. Entretanto, ele limitou-se a dizer:
- Como sempre tenho sorte quando sigo minha intuio, creio que posso prometer-lhe.
- Obrigada, papai.
A voz de Ophelia soou vacilante. Naquele instante, teve a ntida sensao de no estar conquistando a pequena vitria pretendida, mas estar, isso sim, comprometendo-se 
com o sempre ameaador desconhecido.
Por um momento, teve mpetos de dizer ao pai que preferia retirar sua promessa, pois no queria alimentar vs esperanas nele ou no duque, uma vez que no tinha 
inteno de cumpri-las.
Antes que pudesse falar qualquer coisa, porm, o pai levantou-se da mesa, propondo:
- Vamos, j perdemos muito tempo e os cavalos esto  nossa espera.
Ophelia reprimiu seus protestos e, para no contrariar o pai, encerrou o assunto.
- Sim, papai. Espere s um minuto que vou buscar o chapu e as luvas.
Saiu apressadamente da sala e o coronel levou a mo  testa, seguindo-a.
Ao caminhar pelo corredor, ele se dava conta do quanto estivera apreensivo com a reao que a filha teria  sua proposta.
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CAPTULO II
Ophelia no conseguiu dormir a noite toda.
Tinha a sensao de ter cado numa armadilha, da qual no havia a menor chance de escapar.
Era suficientemente lcida para saber que, uma vez em Gore e tendo o duque formulado o pedido de casamento, seria praticamente impossvel recus-lo.
Por outro lado, tinha plena conscincia de que o pai sempre aspirara a um maior reconhecimento social.
Embora sua me e ele sempre tivessem sido tratados com deferncia e respeito no condado de Worcestershire, no gozavam absolutamente dos mesmos privilgios usufrudos 
pela nobreza local.
Talvez por ser americana, a me nunca se importara com no ser convidada a sentar-se ao lado de seu anfitrio durante um banquete. Mas, pelos comentrios espordicos 
do pai, Ophelia no tinha dvidas de que ele se ressentia do fato de nunca poder oferecer o brao  anfitri, ou a uma de suas convidadas mais ilustres, para conduzi-las 
 mesa.
Por mais ftil que as ambies do pai pudessem parecer, especialmente se comparadas  felicidade que compartilhara com a esposa, Ophelia entendia que, agora que 
a me j no mais existia e ela se tornara a herdeira da imensa fortuna do av, essas ambies haviam convergido para ela.
Tornava-se clara, ento, a razo por que o coronel se empenhara em proporcionar-lhe uma educao impecvel, assim como a de estar planejando h mais de dois anos 
fazer de seu debut, em Londres, um verdadeiro acontecimento.
Inclusive ele tivera o cuidado de evitar que Ophelia 25
comparecesse aos mais importantes eventos turfsticos ou a festas que no fossem estritamente destinadas a jovens de sua idade, por ter plena convico de que toda 
donzela s deveria ser vista em pblico depois de debutar.
Desse modo, Ophelia no conseguia entender direito o porqu das ambies do pai, o que era compreensvel, uma vez que lhe faltava uma noo exata do que fosse a 
vida social.
A bem da verdade, seu conhecimento limitava-se s espiadelas furtivas que dava, a distncia, aos convidados de seus pais quando chegavam para os jantares, ou atravs 
do biombo esculpido que separava a Galeria dos Menestris do Salo de Banquetes.
Imaginava, contudo, que o evento organizado na casa do duque teria um aspecto muito mais formal.
com exceo do pai e dela prpria, os demais convidados provavelmente deviam fazer parte da nobreza e talvez estivessem entre eles o prncipe e a princesa de Gales.
No havia dvidas, portanto, de que todos se perguntariam a razo da presena do coronel Ashurst com sua filha, no sendo necessria grande inteligncia para adivinhar 
a resposta.
A situao no poderia ser mais constrangedora.
Se recusasse a proposta, o duque ficaria humilhadssimo, e, por mais que negasse, o pai ficaria furioso.
"No posso ir a Gore", disse Ophelia a si mesma. "Tenho de encontrar uma sada agora, antes que seja tarde demais. "
Deitada na cama, repassou todas as possibilidades.
A menos que estivesse quase morrendo, de nada adiantaria alegar ao pai que estava doente. Ele a arrancaria da cama e a obrigaria a acompanh-lo.
Talvez se casse de propsito do cavalo e quebrasse uma perna, ou perdesse os sentidos, ele no teria alternativa a no ser ir sozinho. A soluo pareceu-lhe muito 
arriscada, pois uma queda de cavalo poderia ter consequncias mais srias.
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"O que vou fazer? O que vou fazer? "
Ophelia varou a madrugada se fazendo essa pergunta e, ao descer, na manh seguinte, a pergunta ainda lhe martelava a cabea.
Assim que o coronel Ashurst entrou na sala de refeies para o caf da manh, ela percebeu que o pai encontrava-se num humor excelente. Certamente j confirmara 
o convite do duque e aguardava ansioso os acontecimentos futuros.
Felizmente, na noite anterior havia vrios convidados para o jantar, e aquele assunto no voltou a ser discutido.
Depois de fazer algumas observaes triviais sobre o tempo, o coronel perguntou a Ophelia:
- Voc no se esqueceu de que viajo esta tarde, no , minha filha?
- Na verdade, eu havia me esquecido, papai.
- Prometi me hospedar na casa de lorde Ludlow para lhe dar alguma orientao sobre os cavalos que acabou de comprar e quer colocar em treinamento.
- Vai ser timo para o senhor - comentou Ophelia, automaticamente.
- Quando o assunto  cavalos estou sempre interessado. Da casa dos Ludlow pretendo ir a Londres. Vai haver uma grande venda de Tatersall e estou de olho num garanho, 
pelo qual pago qualquer preo.
- Posso ir com o senhor?
O coronel Ashurst meneou a cabea.
- Desta vez no. Fui convidado para um jantar do regimento, alm de outro oferecido pelos meus velhos amigos, os Cunninfham, e voc no poderia me acompanhar.
Ophelia soltou um suspiro.
- Ento ficarei em casa feito uma Cinderela!
- Receio que sim, querida. Por outro lado, voc vai ter muito com que ocupar seu tempo, pois contratei um preceptor italiano para lhe dar aulas.
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- , eu sei. Mas, papai, francamente, estou comeando a me sentir entupida com tanto estudo, sem ter qualquer experincia prtica do que quer que seja.
O coronel riu.
- Voc tem muito tempo pela frente para "experincias prticas", como diz, as quais, alis, vo comear quando nos hospedarmos na casa do duque. Lembre-se que vou 
levla como adulta e no como menina.
- Nesse caso, preciso de alguns vestidos novos.
- Ah, as mulheres... O coronel sorriu.
- J pensei nisso minha filha.
- Pensou mesmo?
- Claro! E at escrevi para uma loja na Hanover Square, onde sua me costumava comprar, encomendando uma dzia de suas criaes mais bonitas. Recomendei que deixassem 
tudo preparado para que eu lhe traga na minha volta de Londres.
- tima ideia, embora eu preferisse escolher os modelos pessoalmente.
- Voc sempre aprovou o meu gosto...
- No resta dvida quanto a isso. No entanto, se estou sendo considerada adulta, gostaria de testar minhas prprias ideias, ou pelo menos dar um palpite no que vou 
usar.
- Naturalmente - concordou o coronel. - Porm, como dispomos de pouco tempo, seremos obrigados a deixar para uma outra ocasio. Mas vou lhe dar uma sugesto: se 
voc tiver alguma ideia definida quanto a cor ou modelo, escreva-lhe ainda hoje, informando o que tem em mente. Como desenha bem, poderia at mandar-lhe um esboo.
- Boa ideia.  isso mesmo que vou fazer. O coronel lanou um olhar comovido  filha.
- Perdoe-me, Ophelia, por ter de fazer tudo s pressas. Quero que voc seja um sucesso, filha.
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- Se quer que eu brilhe como uma estrela - observou a jovem com ironia -, no se esquea do reboar dos tambores quando eu aparecer.
Por mais vulgar que fosse, depois do que o coronel havia lhe dito na noite anterior, Ophelia no pde deixar de pensar que, de fato, estaria iluminada por sua fortuna 
e que, ao v-la, uma palavra ecoaria na cabea de todos: "dinheiro... dinheiro... dinheiro".
Ao terminar o caf, o coronel e a filha foram andar a cavalo, no parque, como faziam todas as manhs.
Observando a filha cavalgar, a uma certa distncia, numa imagem viva de destreza e elegncia, o coronel pensou que o duque no seria humano se no se apaixonasse 
por ela assim que a visse.
Sentia-se inseguro, contudo, em relao  reao da prpria filha.
Embora muito jovem e de natureza dcil, ela era extremamente sensvel e amadurecida para sua idade e comeava a preocup-lo v-la to abatida.
Por um momento, lamentou ter de viajar e deix-la naquela expectativa. Pensando melhor, porm, concluiu que talvez at fosse providencial.
No teria oportunidade de falar muito a respeito do duque ou do que a esperava em Gore, e assim ela ficaria surpresa diante da imponncia e beleza da propriedade, 
sem falar,  claro, da aparncia do prprio duque, que tanto o impressionara.
Ophelia aproximou-se novamente do pai, com um sorriso.
- Jpiter est ficando a cada dia melhor. Espero que esteja satisfeito com a maneira como o treinei.
- Satisfeitssimo! Voltemos agora para casa, pois pedi que o almoo sasse mais cedo.
Logo depois do almoo o coronel partiu.
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Sentindo uma estranha sensao de desamparo, Ophelia foi para a biblioteca.
Para no preocupar o pai, preferira omitir dele que o preceptor italiano havia lhe enviado o recado de que estava muito gripado e no poderia lhe dar aula  tarde.
No conseguindo pensar em outra coisa a no ser no rumo que sua vida poderia tomar dentro de duas semanas, Ophelia se deixou ficar contemplando as paredes forradas 
de livros da biblioteca.
Um dos lados da enorme sala estava ocupado por volumes recentemente comprados pelo pai, enquanto a maior parte dela era formada de exemplares acumulados atravs 
dos sculos.
Apesar dos Ashurst terem tradicionalmente sido mais talhados para os esportes e para as armas, sempre souberam apreciar a boa literatura.
Fora Ophelia, porm, quem alertara o pai de que os livros estavam precisando de alguns reparos.
- Creio que h entre os livros obras raras e, portanto, valiosas. Acho que seria bom sabermos exatamente o que possumos.
- Mas claro, filha, seria timo se fossem catalogados concordara ele. - No sei como essa ideia no me ocorreu antes.
O coronel Ashurst escrevera ento ao Museu Britnico pedindo que lhe enviassem o nome de um bibliotecrio perito em preservao e restaurao de livros antigos. 
O museu mandara-lhe uma relao e h dois meses o sr. Baron trabalhava na biblioteca.
Ophelia estava encantada com os verdadeiros "achados" que ele fizera. Havia desde preciosidades medievais at raras obras de interesse histrico.
Alguns encontravam-se em pssimas condies, e o sr. Baron tivera de mand-los para recuperao fora, reclamando que isso deveria ter sido feito muito tempo antes.
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Se no fosse por mim - dizia Ophelia, rindo -, continuariam sabe-se l at quando nesse estado.
Os futuros Ashurst e a posteridade lhe sero gratos
replicava o sr. Baron.
Pegando um livro ao acaso, Ophelia comeou a folhe-lo quando a porta da biblioteca se abriu e o referido senhor entrou.
Ophelia sorriu e disse:
- Estava justamente pensando no belo servio que o senhor fez!
- Obrigado, srta. Ashurst. Fiquei sabendo que seu pai saiu h pouco.
-  verdade. Ele vai passar uns dias fora.
- Ento vou ficar lhe devendo as minhas desculpas.
- Por qu?
- Como ningum comentou comigo que ele tencionava viajar, achei desnecessrio avisar com antecedncia que pretendo ir embora amanh.
- Amanh?
- Meu trabalho est praticamente encerrado, srta. Ashurst. S fiquei aqui hoje porque quis completar o catlogo que pretendia apresentar ao seu pai agora  tarde.
Ele colocou em suas mos um livro, impecavelmente organizado em ordem alfabtica, por ttulo, autor, data de publicao e, em alguns casos, at uma breve descrio 
do contedo.
- Que beleza! Meu pai ficar encantado!
- Espero que sim. S lamento no ter sabido esta manh que ele iria viajar. Gostaria de ter-lhe dito o quanto gostei de trabalhar aqui e agradecer-lhe por sua bondade 
para comigo.
- Fique sossegado que transmitirei seu recado.
-  muita gentileza sua. Mas sabia que a senhorita 31
ficaria contente de ver o servio acabado uma vez que foi quem se deu conta do valor e da raridade de vrios desses volumes,
- Sei muito mais agora a respeito deles e devo agradecer ao senhor tudo o que me ensinou.
- Foi um prazer.
- Mas por que toda essa pressa, sr. Baron? Afinal, meu pai estar de volta em menos de uma semana e sei que gostaria muito de se despedir pessoalmente do senhor.
- A verdade, srta. Ashurst,  que recebi uma carta, solicitando que eu me encarregue da classificao de uma biblioteca, onde, pelo que imagino, encontrarei livros 
ainda mais raros e preciosos do que os daqui.
A maneira exultante com que foram ditas essas palavras fez com que Ophelia levantasse os olhos para ele, curiosa.
- Parece animado, hein, sr. Baron? Ele riu.
- Estou mesmo, srta. Ashurst! A senhorita sabe que trabalho habitualmente em bibliotecas pblicas e s raramente tenho a oportunidade de trabalhar em casas particulares, 
onde invariavelmente h um verdadeiro tesouro de livros, quase sempre desconhecido e mal apreciado.
- Realmente deve ser bem mais interessante. Para que biblioteca vai agora? - perguntou Ophelia, desejosa de prolongar um pouco mais o assunto para no se ver logo 
sozinha novamente.
- Para a biblioteca de Gore, srta. Ashurst. Pelo que entendi da carta que recebi do secretrio do duque, h milhares de livros l e tambm nunca foram catalogados.
- Gore! - exclamou Ophelia, com a respirao suspensa.
-  uma das mais elegantes casas da Inglaterra - esclareceu o sr. Baron. - Sempre ouvi falar muito da biblioteca, mas nunca tive a oportunidade de conhec-la. Como 
os Gorleston ajudaram a fazer a histria deste pas, imagino que
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ha at, escondidos, manuscritos e originais de inestimado valor. Quem sabe...
Era verdadeiramente contagiante o entusiasmo do homem. Ophelia, entretanto, no estava pensando nos livros, mas em si mesma.
A coincidncia era to grande que a assustava. O fato de o sr. Baron ir a Gore no exato momento em que o duque, inesperadamente, entrava em sua vida, parecia at 
fruto do destino.
Sem saber direito o que estava fazendo, ela recolocou o livro na prateleira.
- Nunca vou me esquecer, srta. Ashurst, que se no tivesse me chamado a ateno para o Vitae Illustrium Viroim, de Plutarco, talvez tivesse me passado despercebido.
Ele riu.
- Se algum dia tivesse de ganhar a vida, faria uma bela carreira como bibliotecria.
O olhar espantado que Ophelia lhe dirigiu surpreendeu-o. Ento ela disse:
- Quero conversar com o senhor. Vamos nos sentar prximos  janela, sr. Baron. Preciso de sua... ajuda.
Na manh seguinte, quando seguia rumo  estao na luxuosa carruagem do pai, Ophelia disse a si mesma que estava se expondo a uma aventura digna de qualquer grande 
romance.
Depois de conversar com o sr. Baron na tarde anterior, tudo o que fizera desde ento fora planejar meticulosamente cada detalhe do que tinha em mente.
Por incrvel que pudesse parecer, as coisas ao invs de se tornarem cada vez mais difceis estavam ficando cada vez mais claras, encaixando-se direitinho como as 
peas de um quebra-cabea.
O mais trabalhoso, sem dvida alguma, fora convencer o
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sr. Baron de que o que pretendia fazer com a ajuda dele era perfeitamente vivel, certo e adequado.
No primeiro momento, ele se mostrara chocado e dissera veementemente que no participaria de nenhum plano que implicasse em enganar seu pai ou o duque.
Depois de muitos pedidos e splicas, ele acabara cedendo, sem que ela pudesse imaginar que, na tentativa de persuadi-lo, sua figura era a um s tempo to enternecedora 
e cativante que, qualquer que fosse a idade, homem algum conseguiria resistir e negar-lhe o pedido.
- Sei que estou agindo errado, srta. Ashurst - dissera-lhe ele. - Na realidade, a senhorita est me pedindo que eu coloque em risco, e talvez at destrua, o que 
at aqui tem sido uma honrosa carreira.
- Prometo-lhe que no vai sofrer absolutamente nenhum prejuzo por minha causa. Tudo o que lhe peo  que no v para Gore dentro dos prximos quatro dias. Envie, 
isso sim, um telegrama ao duque avisando que est a caminho.
Ela fez uma pequena pausa, depois prosseguiu:
- Assim que eu chegar l, vou explicar que, no ltimo momento, o senhor ficou retido por um assunto inadivel e que sou sua assistente.
- Como  muito jovem, naturalmente vo achar muito estranho - observou o bibliotecrio, sentindo um certo mal-estar.
- Ento vou dizer que sou sua filha. Ningum oporia qualquer objeo nesse caso.
- Realmente no, srta. Ashurst, mas deve entender que seria muito pouco provvel que um sujeito como eu tivesse uma filha como a senhorita.
Ophelia sorriu.
- Se no o conhecem, como vo pensar isso? Alm do mais, est sendo muito modesto, sr. Baron. No vejo razo por que o senhor no pudesse ter uma filha como eu.
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Foram precisas duas horas para que Ophelia finalmente conseguisse faz-lo capitular e concordar em permanecer por mais quatro dias em sua casa.
- Assim que o senhor chegar, eu volto. Quero estar aqui antes de meu pai regressar de Londres, mas ento j terei sabido tudo o que desejo a respeito do duque.
- J pensou no que ele dir quando descobrir quem a senhorita realmente ?
- Isso no vai ser problema. E fique sossegado, vou dizer a ele que o senhor no sabia de nada. De seu lado, pode dar uma desculpa bem razovel, como ter pensado 
que havia acabado o servio aqui e depois ter descoberto um love de livros que no haviam sido inseridos no catlogo. Por uma questo de lealdade a meu pai, o senhor 
resolveu terminar tudo o que tinha a fazer antes de iniciar um novo trabalho.
O plano soava muito plausvel, at para a prpria Ophelia. No tendo encontrado qualquer falha na qual se apoiar, o pobre sr. Baron acabara por endoss-lo.
A dificuldade seguinte fora convencer o secretrio do pai de que precisava se ausentar por uns dias.
- O coronel no comentou nada a respeito de a senhorita ir viajar - estranhara o sr. Allen.
- Foi porque s abri a carta de minha amiga, convidando-me para ficar l durante a ausncia de meu pai, depois de ele ter partido. Sei que papai ficar contente 
de eu me hospedar na casa de Elizabeth Grayson.
Ao ouvir aquele nome, o ar de ansiedade desaparecera da expresso do sr. Allen.
- Ah, se est indo para a casa de lady Grayson, ento est tudo bem.  que a senhorita no disse logo para onde ia.
- vou viajar de trem at Paddington e eles vo me buscar l.
O sr. Allen no colocou mais objeo alguma. Depois fora a vez da velha criada da casa reclamar de ter de fazer as malas to rapidamente.
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Martha era sempre a mesma. No gostava de ser apressada.
- No vou precisar de muita coisa - dissera Ophelia para acalm-la. - Papai vai me trazer uma poro de roupas novas.
- Nunca vi tamanha extravagncia! - protestara ela, com a intimidade que o tempo constri. - Faz apenas alguns meses que comprou essa coleo de vestidos.
-  verdade, mas acontece que so muito infantis e agora preciso usar alguma coisa mais adulta.
Sem prestar ateno, Martha enchia uma mala de roupas, resmungando o tempo todo.
Na realidade, a criada passou a ser seu maior problema. Como filha de um bibliotecrio, ela no poderia chegar de forma alguma a Gore levando uma dama de companhia.
Por outro lado, em hiptese alguma poderia sair de casa e viajar, por mais curta que fosse a distncia, sem lev-la.
Se o sr. Allen cismasse que havia qualquer coisa errada naquela viagem, imediatamente telegrafaria a seu pai.
Tambm no adiantava pensar em se abrir com a criada, pois ela no tinha inclinao alguma para atriz e acabaria se traindo antes de partirem.
Somente depois que o sr. Allen as deixou na estao e j haviam se acomodado no compartimento privativo do trem, Ophelia teve uma sbita inspirao, o que no foi 
sem tempo, uma vez que j estava chegando s raias do desespero sem saber o que fazer com Martha.
Sentando-se ao lado da boa senhora, disse-lhe em tom animado:
- Creio que lhe falei, Martha, que recebi uma carta da bab h um ms.
- Disse sim, srta. Ophelia.
- Lembra-se de que ela pediu para irmos visit-la da prxima vez que fssemos a Londres?
- Claro que me recordo.
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- Pois quero que v v-la e fique com ela nos prximos quatro dias.
- Por que deveria ir, srta. Ophelia? - perguntou Martha, espantada.
- No quis lhe dizer antes de sair de casa, mas lady Grayson me pediu encarecidamente que no levasse acompanhante alguma.
- Mas por qu? J estive l tantas vezes!
- , eu sei... Acontece que a casa no  muito grande, voc sabe, e parece que vo receber muita gente, por isso todos os quartos j esto ocupados.
- Ento por que no me contou nada? - Martha quis saber, meio indignada.
- Voc bem sabe o escndalo que o sr. Allen faria uma vez que meu pai no est em casa. Jamais permitiria que eu viajasse sozinha para Londres. Era capaz de vir 
comigo e sabe como  maante!
Ophelia pousou a mo sobre a da criada, num gesto carinhoso.
- Sempre gostei de ir com voc para todo lado, Martha, mas trs horas de ida e depois de volta num trem com o sr. Allen no daria para aguentar.
Era visvel que a criada estava amolecendo.
- Alm disso, estou sendo tambm um pouco egosta, pois tenho uma verdadeira lista de coisas que gostaria que voc comprasse para mim em Londres, antes de irmos 
para a casa do duque.
Desnecessrio mencionar que, quela altura, todos os criados da casa estavam sabendo do convite do duque. A notcia se espalhara facilmente.
- Embora meu pai v comprar os vestidos, os homens sempre se esquecem dos acessrios e voc conhece perfeitamente meu gosto. Ento, Martha, me ajuda a preparar a 
relao do que preciso?
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Naquele terreno Martha realmente dominava. Ela desenrolou uma enorme lista de acessrios enquanto Ophelia os ia anotando em algumas folhas tiradas de um dirio.
Ophelia ficou convencida de que aquela lista manteria a boa criada ocupada e no lhe daria tempo de ir  sua casa em Londres, onde poderia mexericar com os outros 
criados.
Em todo caso, recomendou:
- Acho que seria melhor voc no ir a Park Lane. Se papai souber que estou hospedada nos Grayson sem voc,  capaz de fazer barulho.
- Se acha que ele no aprovaria, talvez fosse melhor no ir, srta. Ophelia. No consigo mesmo entender um convite desse jeito!
- Lady Grayson se desculpou tanto, Martha, e voc mesma no gostaria de ficar espremida num quarto pequeno com outra empregada qualquer.
Essas palavras encerraram o assunto. Em ocasies anteriores, Martha no se conformara de ter de partilhar o quarto com outra pessoa e reclamara muito.
- Bem, acho que no vou poder deixar de ir a Londres, pois vai precisar de tudo daquela lista quando for a Gore.
- Obrigada, Martha, e pode comprar mais alguma coisa que achar necessrio.
A criada guardou a lista na enorme sacola de mo, e Ophelia voltou a sentar-se no banco oposto ao dela, sentindo um enorme alvio.
Fora esperta, disse a si mesma, considerando-se mais esperta ainda quando, ao descer em Paddington, conseguiu enfi-la no primeiro cabriol parado junto  estao 
para que seguisse viagem primeiro.
- Quero coloc-la na carruagem de Sua Alteza - protestara ela.
-  melhor voc ir antes que fique sem transporte. J posso v-los, ali do outro lado.
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- Mas, srta. Ophelia...
- No se preocupe, Martha. A carruagem dos Grayson est logo ali, e Elizabeth deve estar l  minha espera replicou Ophelia, afastando-se seguida pelo carregador 
que transportava sua bagagem em um carrinho.
Assim que o cabriol, que levava Martha, saiu de vista, ela disse ao homem:
- Preciso pegar o trem que vai para Beaconsfield. Pelo que me informaram, h um dentro de meia hora, no ?
- Isso mesmo, senhorita. Parte ao meio-dia e vinte e cinco.
- Pode me levar at a plataforma de embarque, por favor?
Muito solcito, o carregador no s a acompanhou at o vago de primeira classe, como tambm ajudou-a a se acomodar, mostrando-se surpreso e contente com a polpuda 
gorjeta que recebeu.
Ophelia ajeitou-se na poltrona, sentindo o corao pulsar descontrolado ao olhar pela janela. Apesar da ansiedade que a dominava, sentia uma indescritvel satisfao. 
Era a primeira vez que viajava desacompanhada. Quando no estava com o pai, ele exigia que seu secretrio ou o mordomo lhe fizesse companhia.
No se lembrava, porm, de ter feito na vida algo to repreensvel e talvez insensato como mentir, tanto quanto naquelas ltimas vinte e quatro horas.
"Isso  uma verdadeira fuga", disse a si mesma, com um friozinho no estmago. "Ningum imagina onde estou! "
A razo lhe dizia que tanto seu pai quanto suas amigas ficariam horrorizados se soubessem o que pretendia fazer, mas impulsionava-a a conscincia de que, quando 
se tratava de um caso de autopreservao, qualquer medida desesperada era vlida.
"Preciso saber quem  e como  o duque, sem que ele saiba quem eu realmente sou. "
39obser

Mesmo que no tivesse a oportunidade de conversar com ele, pois talvez o nobre no se dignasse a dirigir a palavra  simples filha de um bibliotecrio, poderia observ-lo 
e saber a opinio dos criados sobre ele.
Sentia uma inegvel curiosidade de descobrir como seria recebida. No acreditava que fosse fazer as refeies com a criadagem. Mais provavelmente, as faria sozinha, 
como o sr. Baron em sua casa.
No embalo do trem, Ophelia acalentou as mais diversa; divagaes sobre sua estada em Gore. Pensava na maneira como se apresentaria, em como seria tratada, e temeu 
a possibilidade de que o duque no se interessasse pessoalmente pelos livros e, portanto, ela nem chegasse a conhec-lo.
Subitamente um pensamento lhe passou pela cabea: o duque precisava urgentemente de dinheiro!
Pareceu-lhe muito bvio que talvez estivesse pensando em vender alguns livros para levantar dinheiro.
Se isso fosse verdade, quem sabe ele no estaria querendo evitar o casamento com uma mulher rica?
Mas era tambm possvel que ele estivesse to-somente querendo fazer um levantamento do acervo de sua biblioteca, pois, da mesma maneira que outros bens, talvez 
estivesse vinculada ao patrimnio da famlia.
"S vou descobrir quando chegar", pensou Ophelia, sendo tomada por um certo pnico, agora que o trem. se aproximava do destino.
"J pensou que humilhao se o duque me disser: sei que a senhorita  filha do coronel Ashurst! "
Sentindo que seu nervosismo aumentava a cada minuto, Ophelia procurou tranquilizar-se, afirmando a si mesma que o duque no poderia sequer imaginar como ela fosse, 
uma vez que jamais a avistara e, segundo seu pai, nem se interessara em saber como era.
Perdida nos prprios pensamentos, Ophelia nem se mexeu ao ouvir o nome da estao ser anunciado. Instintivamente,
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talvez esperasse que Martha recolhesse suas coisas. Dando-se conta de que estava sozinha, teve um sobressalto, procurou ajeitar-se e tratou de descer assim que o 
trem parou.
Aceitara sem hesitar a passagem de primeira classe que o funcionrio do guich'havia lhe oferecido, mas tinha plena conscincia de que a filha do sr. Baron viajaria 
de segunda classe.
Aparentemente no havia ningum aguardando pelo bibliotecrio na plataforma.
Ophelia caminhou at a sada e avistou ali parado um lacaio uniformizado.
Sem deixar-se intimidar, dirigiu-se a ele.
- Por acaso est aqui para buscar o sr. Baron?
- Estou sim, senhora - respondeu o homem, respeitosamente.
- Ento  de Gore. Vim no lugar do sr. Baron, que teve um contratempo em Londres. Sou filha dele.
Ophelia notou uma expresso de surpresa no rosto do lacaio, mas, depois de uma ligeira hesitao, ele disse:
- A carruagem est esperando l fora, senhora. Se tem bagagem no trem, vou pedir a um carregador para apanh-la.
- Tenho trs malas e uma caixa de chapus. Ophelia sabia que o volume de sua bagagem deixaria o
lacaio mais intrigado ainda. Era realmente grande para a filha de um bibliotecrio, mas no conseguira convencer Martha a pr menos roupas.
Isso, entretanto, no era da conta dos criados, e o lacaio dificilmente iria contar ao duque que ela viera to bem equipada.
A expectativa de Ophelia cresceu ainda mais porque demorou algum tempo para que as malas fossem trazidas e colocadas na carruagem puxada por dois cavalos.
Finalmente, o lacaio tomou seu lugar na boleia, e puseram-se a caminho de Gore.
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Ophelia soltou um suspiro de alvio.
"At aqui, tudo bem! "
No importava o que pudessem dizer, fora preciso desembarao e astcia para viajar sozinha at ali.
Apenas uma pessoa to superprotegida quanto ela prpria poderia avaliar o sentimento de auto-realizao que experimentava. Provavelmente conheceriam o mesmo tipo 
de satisfao os que se propusessem a chegar ao Plo Norte ou a escalar o monte Everest e conseguissem.
Embora detestasse admitir, sentia-se tremendamente amedrontada. Ia comear a parte mais difcil de seu plano.
"O pior que pode acontecer  o duque descobrir minha identidade e me mandar, em desgraa, de volta para casa, alegando que sou a ltima mulher no mundo com quem 
deseja casar-se. "
"E no seria um alvio?" perguntou-se, indecisa.
Pela centsima vez, Ophelia indagou a si mesma se o pai teria razo ao imaginar que nenhum ingls decente a pediria em casamento.
"No sei se quero me casar algum dia, mas tenho certeza de que quero ser amada. "
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CAPTULO III
O duque de Gorleston acabava de assinar alguns papis quando seu secretrio, um homem dedicado que servira anteriormente a seu pai, lhe disse:
- H uma carta que talvez tire um pouco o sossego de Vossa Alteza.
O duque arqueou as sobrancelhas, intrigado.
Desde que herdara o ttulo, parecia-lhe estar apenas acumulando preocupaes. No estranhava, portanto, que essa carta lhe trouxesse mais uma.
- De que se trata?
-  sobre a biblioteca, Vossa Alteza. Foi enviada por um americano interessado em colecionar livros antigos. Achei estranha a coincidncia de chegar justamente no 
momento em que Vossa Alteza contratou os servios de um bibliotecrio.
- Afinal o que diz a carta?
- Embora admita que talvez no passe de boato, o cavalheiro alega que h, na coleo dos Gorleston, um original de Shakespeare, e pede preferncia, no caso de o 
senhor pretender dispor dele.
O duque olhou espantado para o secretrio.
- Um original de Shakespeare? Acha que  possvel?
"- Pessoalmente, considero isso improvvel, Alteza, mas como no existe registro algum das obras da biblioteca, talvez eu esteja enganado.
- Se existisse esse original, certamente encontraramos meno dele entre os papis de meu pai ou de meu av.
- Concordo, Alteza. Por outro lado,  uma pena que o boato tenha alcanado a Amrica.
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- O que quer dizer? Por acaso a notcia j circulou tambm na Inglaterra?
- Apenas no ltimo ms.
- Como assim, sr. Hansard?
- Recebi outro pedido semelhante na semana passada, mas, como achei que a informao era improcedente, no quis pass-la ao senhor para no incomod-lo. Agora, porm, 
como  a segunda carta com o mesmo teor, o caso muda de figura.
- Claro... claro... - reconheceu o duque, pensativo.
- E de quem era essa carta?
- De um dos mais bem-conceituados estabelecimentos de Londres, que trabalha com obras antigas. O proprietrio tambm insinuou que existem alguns exemplares valiosos 
em sua biblioteca e que gostaria de ter preferncia, no caso de desejar coloc-los  venda.
- Concordo com voc.  muito estranho receber duas cartas com o mesmo propsito, num espao to curto de tempo. Qual  sua opinio, algum que conhece a biblioteca 
andou falando demais, ou trata-se apenas de especulao por parte desses dois senhores?
- Realmente no fao ideia, Alteza, mas fico satisfeito de ter recebido um telegrama do sr. Baron, que foi recomendado pelo Museu Britnico, confirmando que chega 
hoje.
- Est sugerindo que possam tentar entrar aqui para roubar alguma coisa?
- No sei - replicou o sr. Hansard. - De qualquer forma, vou pedir aos guardas da noite que fiquem de olho na biblioteca. Confesso-lhe, Alteza, que o assunto me 
deixa ansioso.
- Ansioso?
Ele teve a impresso de que o secretrio tinha qualquer coisa mais para lhe dizer, mas estava meio embaraado. Ento, como se achasse que era seu dever avisar, Hansard 
disse, em tom preocupado:
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- Na realidade, Alteza, o capito Harry me pediu a chave da biblioteca hoje.
- A chave?
- Exato. Depois de ler as duas cartas, achei conveniente manter a biblioteca trancada at a chegada do sr. Baron.
- E o capito quis entrar na biblioteca?
- Quis, Alteza.
O sr. Hansard recolheu rapidamente os papis e as cartas que o duque havia assinado, parecendo ter pressa em se retirar da sala.
O duque no procurou det-lo. Deixou que sasse e permaneceu olhando fixamente  sua frente.
Sabia perfeitamente que o sr. Hansard era de inteira confiana. Afinal, trabalhara com seu pai nos ltimos vinte e cinco anos. Sem dvida, se no tivesse ficado 
realmente preocupado com seu pedido, o bom homem no citaria o pedido de Harry.
O duque, entretanto, no estava surpreso.
Desde que ele regressara da ndia, Harry Goring, seu primo e eventual herdeiro, insistia para que lhe fizesse um emprstimo ou, de preferncia, lhe desse um presente 
em dinheiro, coisa que o duque absolutamente no tinha condies de satisfazer.
De incio, o pedido de Harry tivera um tom jovial.
- Tenho certeza, meu velho, de que vai compreender que, como seu pai andava enfermo, no quis preocup-lo.
Como no obtivesse resposta, tornara-se insistente e depois mais exigente.
O duque era uma pessoa extremamente perspicaz no que dizia respeito ao carter e comportamento humanos.
Ficara sete anos sem ver o primo e, ao reencontr-lo, persistira a antipatia que nutria por ele desde os tempos de infncia.
Harry Goring desconhecia o que fosse trabalho. Era o prottipo do parasita social. Chegara a ser colocado no regimento do condado, pelo velho duque, onde lhe fora 
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concedida a patente de capito. Contrariando todas as normas ticas, ele continuara usando a patente apesar de pouco depois ter deixado o servio militar.
com exceo de algumas mulheres que o consideravam atraente, ele conquistara com isso a antipatia geral e era muito malquisto.
Assim que tomou conhecimento da verdadeira situao financeira de Gore, o duque informou categoricamente ao primo que no dispunha de fundos para ceder-lhe.
- Que diabo! - protestara Harry. - Agora voc  o chefe da famlia e  seu dever cuidar dela.
- Tenho plena conscincia de minhas responsabilidades
- replicara o duque, com frieza -, mas  impossvel tirar leite de uma pedra. S posso lhe dizer, Harry, que voc  jovem e saudvel, enquanto temos parentes idosos 
e muito mais necessitados do que voc.
- Mas sou seu possvel sucessor - argumentara o primo, agressivo.
O duque no pudera conter um sorriso de desprezo.
- No sou nenhum velho decrpito, Harry.  bem possvel que eu me case e venha a ter um filho, por isso  melhor no contar muito com meu ttulo.
- Ora... voc poderia vender alguma coisa.
Dando uma pequena gargalhada diante da impertinncia do primo, o duque replicara:
- Se vendesse alguma coisa teria muita gente para ajudar antes de voc, mas nada posso vender porque os bens esto alienados.
Na ocasio ele pensara estar falando a pura verdade, descobrindo somente um ms depois, ao rever a questo do seguro, que a biblioteca no fazia parte da vinculao 
de bens.
Estranhando o baixo valor do seguro, ele comentara com o secretrio.
- Nunca consegui convencer seu pai a aument-lo. Todos os anos era uma luta. Como os livros no so 46
catalogados, fica realmente difcil dizer se h alguma coisa de valor na biblioteca.
- Os livros no so catalogados? Que incrvel!
- Talvez j tenham sido, mas, se havia um catlogo, deve ter se extraviado. Falando francamente, Alteza, a biblioteca  um territrio desconhecido. Acredito que 
haja nela at primeiras edies de livros que se tornaram valiosos no decorrer dos anos. No sou, entretanto, entendido no assunto. Seu pai, por sua vez, s se interessava 
por biografias de contemporneos e livros sobre esporte.
-  verdade - concordara o duque, sorrindo. Depois, tornando-se novamente srio, perguntara: - Quer dizer ento que o contedo da biblioteca no est vinculado...
- Exatamente, Alteza.
A informao surpreendera o duque, que refletira por alguns minutos antes de dizer:
- Acho que a primeira providncia que devemos tomar  fazer um levantamento das obras existentes e catalog-las. Precisamos de um bibliotecrio de extrema confiana.
- vou escrever imediatamente ao Museu Britnico, Alteza. No tenha dvidas de que vo mandar o profissional mais bem-conceituado que tiverem quando souberem que 
 para a biblioteca de Gore.
O duque agradecera ao secretrio e ficara por algum tempo pensando naquela estranha situao.
Parecia incrvel que uma biblioteca magnfica como aquela e to conhecida no tivesse todo seu contedo devidamente registrado.
A biblioteca era famosa por ter sido desenhada por Robert Adam, sendo posteriormente copiada por outras casas importantes. Quase todos os livros que mostravam as 
obras-primas da arquitetura britnica traziam ilustraes dela.
Aparentemente, porm, ningum se preocupara com seu contedo, o que deixava de ser providencial ao duque. 47
Talvez pudesse vender alguns exemplares de valor, encontrando assim uma resposta aos seus problemas mais imediatos.
Moralmente, contudo, sentia-se na obrigao de conservar todas as preciosidades de Gore para as futuras geraes.
Assim, caso viesse a se confirmar a existncia de obras valiosas na biblioteca, o duque estava consciente de que teria de enfrentar um outro tipo de problema, dessa 
vez de ordem moral.
Ele deixou-se ficar filosofando a respeito do inesperado de sua prpria situao e de como a vida podia ser imprevisvel.
Como jamais sonhara em ser o herdeiro do pai, nunca se preocupara com os gastos que o velho duque tinha para manter a cocheira, suas vastas propriedades, seus inmeros 
empfegados, que se consideravam parte da famlia por serem antigos, sem falar nos altos impostos.
Noite aps noite, depois de herdar o ttulo, o jovem duque ficara at altas horas no escritrio fazendo clculos e analisando a grande quantia de dinheiro que precisaria 
para pagar no somente as dvidas contradas pelo pai, como tambm para manter o dia-a-dia de suas propriedades.
De natureza cautelosa, o duque no tomara nenhuma providncia precipitada. Mantivera tudo exatamente como o pai deixara, procurando examinar, sob todas as perspectivas, 
a tarefa que tinha pela frente.
A conduta do duque, alis, sempre fora irrepreensvel, caracterizando-se pela discrio, austeridade e autocontrole, qualidades que aprendera a desenvolver, primeiramente, 
no internato onde fora educado desde tenra idade e, posteriormente, no exrcito.
Embora fosse filho de nobres, nunca se prevalecera dessa condio, nem se dera ares de importncia, da receber as mais calorosas demonstraes de afeto quando, 
ainda to jovem, fora promovido a coronel, pouco antes do falecimento do pai. Os veteranos reconheciam seu valor e os mais jovens admiravam seu sucesso.
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A notcia da morte do pai, entretanto, obrigara-o a abandonar a carreira no Exrcito e a voltar imediatamente.
No fora,  verdade, to chocante quanto a notcia da morte do irmo um ano antes, quando se tornara herdeiro do ducado, mas, inegavelmente, colhera-o de surpresa.
Naquela ocasio no se dera conta da responsabilidade que o aguardava, provavelmente por imaginar que o pai ainda teria uns dez ou quinze anos de vida.
Agora estava embrenhado numa campanha to rdua quanto as que sucessivamente tivera de lutar na ndia, com a diferena que, desta vez, o inimigo no eram homens 
e sim dinheiro.
Por causa disso, praticamente, no confiava em ningum.
Conversara com os advogados do pai e procurara se inteirar de detalhes que somente o sr. Hansard sabia.
No havia, contudo, comentado com nenhum deles a respeito do que pretendia fazer.
A nica pessoa estranha para quem se havia voltado naquele momento de dificuldade fora um amigo do pai, unanimemente respeitado como o maior conhecedor de cavalos 
de corridas na Inglaterra: o coronel Ashurst.
A sugesto que o coronel lhe dera para resolver seus problemas atingira-o feito uma bomba: casar-se com uma mulher rica!
Atraente, o duque havia naturalmente tido contato com muitas mulheres na vida, mas nenhum marcante.
Quando estava de folga em Simla, apreciava a companhia feminina, mas considerava-a como o perfume de uma flor, muito agradvel se prximo a ela, facilmente olvidvel 
a distncia.
Devido aos seus sentimentos pessoais com relao s mulheres, chegava a se irritar com os soldados que, ao voltar das folgas, no conseguiam se concentrar em suas 
tarefas, circulando entre os demais com o olhar vago.
Embora nutrisse dentro de si a convico de que um dia se casaria e constituiria uma famlia, imerso nos perigos e
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afazeres da vida militar, no tinha tempo para pensar em mulheres.
A questo que agora se lhe impunha de um casamento por convenincia deixava-o num grande conflito.
Sempre tivera grande orgulho de seus ancestrais. Os Goring haviam servido a seu pas como estadistas e militares, tanto da Marinha como do Exrcito, e alguns inclusive 
haviam alterado o curso da Histria na Inglaterra.
Sabia que teria de se casar para ter um filho, que se tornaria o sexto duque de Gorleston, sucedendo-o.
A famlia sempre considerara fundamental a garantia de sucesso e a preservao da riqueza.
Durante o transcorrer das histrias, outros parentes seus haviam se defrontado com o mesmo problema.
Um Goring havia se casado com uma rica herdeira do norte, que possua vastas propriedades em Liverpool.
Um sculo depois, fora a vez de outro Goring se casar com uma plebeia cujo pai havia feito verdadeira fortuna com o comrcio de escravos.
Sem dvida alguma, ela devia ter ficado encantada de se tornar duquesa, pois havia nada menos do que seis retratos seus espalhados pela casa.
Havia, na realidade, retratos de muitas outras mulheres, gordas e magras, feias e bonitas, que tinham abastecido com seu ouro os cofres da famlia, acrescentando 
muitos acres de terra s suas propriedades, alm de gerar filhos para assegurar a continuao do nome dos Goring.
O duque havia percorrido com cuidado os vrios aposentos da manso, examinando os retratos de seus ancestrais. Tinha a sensao de que, se pudessem falar, lhe diriam 
que ignorasse seus sentimentos pessoais e cumprisse sua obrigao de salvar a casa e a reputao dos Goring.
Porm, a ideia de se casar simplesmente por dinheiro revoltava-o e fazia-o sentir-se vulgar.
Sempre acreditara que seus prprios pais houvessem se casado por amor.
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"Embora a me no fosse rica, era filha do duque de Hull,  o casamento fora do agrado de todos.
- "Sangue azul com sangue azul  o que importa" repetia sempre o velho duque.
Talvez inconscientemente tivesse sido influenciado pelas palavras do pai, mas a verdade  que, sempre que pensava em casamento, imaginava uma mulher linda e sensvel, 
como fora a me.
 A quarta duquesa de Gorleston sempre fora elogiada por sua extrema beleza. Entretanto, tornara-se amada por todos com quem mantinha contato por suas qualidades 
de esprito.
Sem perder a dignidade e no permitindo que ningum se prevalecesse de sua doura, era humana, tolerante e compreensiva.
Era esse conjunto de qualidades que o duque sempre esperara encontrar na prpria esposa.
O coronel Ashurst era indubitavelmente um cavalheiro, no sentido exato das palavras, mas nada sabia de sua esposa, a no ser que era americana e imensamente rica.
- No vou colocar  cabeceira de minha mesa algum que no saiba se comportar - decidira o duque, ao terminar de percorrer a Galeria de Quadros.
A srta. Ashurst no era, afinal, a nica ricaa da Inglaterra. Qualquer mulher da sociedade sonhava com um cetro de duquesa e Londres, certamente, o receberia de 
braos abertos.
A luta do duque, sem dvida, era contra o tempo. Quanto mais examinava as contas, mais claro ficava que precisava tomar uma deciso com urgncia.
Seu primeiro impulso, conforme havia dito ao coronel Ashurst, fora o de se desfazer da cavalaria do pai por gerar gastos astronmicos.
Embora tivesse consentido que os cavalos inscritos em Goodwood Doncaster participassem das corridas, sabia de antemo que seria impossvel concorrerem na temporada 
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seguinte. Sem poder arcar com os gastos decorrentes de sua manuteno, via como nica sada vender todos.
O mesmo acontecia com a caada prevista para a semana seguinte, planejada antes da morte do pai.
Os convidados, praticamente os mesmos que compareciam todos os anos, j haviam confirmado sua presena, com exceo do prncipe de Gales, de quem ainda aguardava 
resposta.
Segundo o sr. Hansard, o prncipe sempre abria a temporada de caa em Gore, mas talvez, depois de receber a notcia do falecimento de seu pai, tivesse assumido um 
outro compromisso.
- Quer dizer que o prncipe teve receio de que eu no seguisse as tradies de meu pai e no quis perder nem um dia de caa!
Percebendo o tom de sarcasmo do duque, o sr. Hansard respondera meio hesitante:
- Naturalmente todos os que organizam grandes caadas anseiam por receber Sua Alteza Real.
- Como tradicionalmente vem aqui, no devemos desapont-lo.
- Na realidade, acredito que Sua Alteza deseje mesmo vir a Gore. O secretrio que me deu a informao provavelmente queria fazer suspense.
O duque rira e acrescentara:
- Espero que ele venha. Talvez esta seja a ltima vez. O secretrio o olhara espantado.
- Ser convidado para caar em Gore  a aspirao de todo bom atirador neste pas.
- Sei disso, mas duvido que tenham a mnima ideia de quanto esse acontecimento nos custa.
Agora o duque se perguntava de quantas outras coisas teria ainda de abrir mo.
Inevitavelmente, seu pensamento detivera-se na questo humana, a mais crucial. Seus empregados dependiam dele 52
economicamente e no era justo pensar em despedir gente que a vida toda fora leal  sua famlia.
O duque se pegara contemplando o retrato de um Goring que havia sido corteso de Charles II e, subitamente, vieram-lhe  mente as famosas palavras de Henrique de 
Navarra:
"Paris bem vale uma missa. "
Pela primeira vez, ento, aceitara que seus sentimentos deviam ser deixados de lado e acabara adaptando a frase clebre  prpria situao:
"Gore bem vale um casamento. "
Caminhando at a janela, ele se ps a contemplar o lago e as rvores centenrias do jardim.
"Este  meu reino", disse a si mesmo. "Preciso defend-lo a qualquer custo, mesmo com o sacrifcio de minha vida. "
Fora ento que se dirigira ao escritrio para escrever a carta ao coronel Ashurst, convidando-o com sua filha para a temporada de caa em Gore.
Ainda assim, procurava analisar se no existiriam outras alternativas para salvar Gore.
A possibilidade de vir a vender alguma obra importante da biblioteca voltou mais uma vez a tent-lo.
Intrigava-o o fato de que Harry houvesse pedido a chave da biblioteca. No se lembrava de que o primo tivesse qualquer interesse por livros, a no ser quando se 
tratava de biografias recm-lanadas que excitavam os comentrios das altas-rodas sociais.
No restavam dvidas de que fora o boato da existncia de livros de valor em Gore que havia despertado aquele seu sbito interesse pela biblioteca.
Depois de se recusar a dar-lhe qualquer dinheiro, o duque h muito esperava que o primo decidisse ir embora dali. Harry, pelo contrrio, parecia ter-se instalado 
de vez em Gore e o duque relutava em dizer-lhe que preferia sua ausncia  sua companhia.
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Movidos pela curiosidade de rever o duque, depois de ter passado tantos anos no exterior, muitos parentes haviam "se convidado" para visitar Gore.
Quando Harry chegara, o duque estava hospedando duas tias e um primo muito idosos, sendo, de certa forma, at bem-vinda a presena dele, pois, com sua prosa e espirituosidade, 
ajudara a distra-los.
To logo os trs haviam partido, o primo lhe dissera, sem a menor cerimnia:
- Por Deus, Sandor, temos cada parente maante! Preciso adverti-lo de que, se no tomar cuidado, um dia desses se instalam em Gore e voc vai ter a maior dificuldade 
em livrar-se deles!
Ironicamente, as palavras aplicavam-se ao prprio capito Goring, e inmeras vezes o duque se perguntara o que o conservava ali.
Agora entendia que no era apenas a esperana de vir a obter um emprstimo.
- vou dar uma verificada na biblioteca eu mesmo decidiu o duque.
Apesar de ter conscincia da prpria inteligncia, sabia que no seria capaz de avaliar o valor ou a antiguidade das obras existentes.
Consciente tambm de que existiam muitas falsificaes de obras famosas, s esperava que quando o bibliotecrio chegasse no o fizesse se encher de esperanas, afirmando 
ter encontrado algum tesouro escondido, para, em seguida, descobrir que estava enganado.
Caminhando pelo corredor, ele parecia ouvir uma voz a desafi-lo:
- No vai dar tempo!
Isso s fazia aumentar a ansiedade dentro de seu peito, pois no tinha dvidas de que, quando tivesse o coronel Ashurst sua filha entre seus convidados, seria muito 
difcil voltar atrs. O prprio convite era uma forma de comprometimento moral.
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"Mesmo assim, se a srta. Ashurst for insignificante ou vulgar, definitivamente no fao a proposta. "
Nesse momento, surgiu no outro extremo do corredor o sr. Hansard, que caminhou em direo a ele.
- Vinha  sua procura, Alteza - disse-lhe o fiel secretrio. - Achei que o senhor gostaria de saber que um contratempo impediu que o sr. Baron viesse hoje.
O duque franziu as sobrancelhas, contrariado.
- Ser que vai demorar?
- Pelo que sua filha me disse, deve chegar dentro de trs ou quatro dias.
- Que filha?
- Pois , Alteza, estava para lhe dizer que, como na ltima hora o bibliotecrio no pde vir, mandou a filha para comear o trabalho no lugar dele. Pelo que ela 
disse, sempre trabalha com o pai e tem bastante experincia.
- No deixa de ser um trabalho incomum para uma mulher. Pelo menos ela pode comear a separar os livros, o que imagino que exigir um bom tempo.
-  verdade, Alteza. A srta. Baron ficou, de fato, surpresa com o tamanho da biblioteca e com o enorme nmero de volumes que contm.
- Por favor, sr. Hansard, providencie tudo o que ela necessite para comear o trabalho logo.
- J fiz isso, senhor.  uma pena que o pai dela no possa ter vindo hoje, como espervamos.
-  verdade. Bem, eu mesmo vou ver a srta. Baron e dizer a ela que quanto antes comear a trabalhar melhor.
Sem esperar pela resposta do sr. Hansard, o duque dirigiu-se  biblioteca.
Abriu a porta e, por um momento, pensou que no houvesse ningum ali. Seus olhos correram as longas paredes forradas de livros e ergueram-se para o estreito balco 
que sobressaa de uma delas.
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Foi ento que notou um pequeno movimento junto a uma das janelas do lado esquerdo e dirigiu-se para l.
De costas para ele, uma figura feminina apreciava a vista inegavelmente bela daquele lado da casa.
Dali as janelas abriam-se para um gramado que se projetava em declive at o lago, sobre o qual se debruava uma inigualvel ponte chinesa, que um dos Goring fizera 
vir de Pequim, conferindo um toque extico  paisagem.
Embora no pudesse ver-lhe o rosto, o duque no pde deixar de admirar a silhueta esbelta e o porte elegante daquela jovem de cabelos brilhantes.
Caminhou at ela sem que seus passos pudessem ser ouvidos, abafados pelo espesso tapete persa.
Somente quando parou, a jovem pareceu aperceber-se de sua presena, voltando-se para ele e surpreendendo-o com seus grandes olhos cor de violeta, nos quais havia 
um leve brilho de medo.
Esperando encontrar algum completamente diferente, o duque limitou-se a fit-la, em silncio, at perceber que um leve rubor lhe tingia o rosto.
- Deve ser a srta. Baron?
- Sou sim, Alteza - replicou Ophelia, fazendo, com algum esforo, uma reverncia.
O duque estendeu-lhe a mo.
- Seja bem-vinda a Gore e saiba que lamento o fato de seu pai no poder estar aqui hoje.
- Ele... tambm lamenta. Mas recomendou-me que comeasse imediatamente o trabalho em sua biblioteca. Confesso-lhe que no fazia ideia de que fosse to grande, nem 
que contivesse tantos volumes.
O duque sorriu.
- Espero que seu pai no esmorea diante de tarefa to grande e que a senhorita realmente comece a trabalhar logo.
- Naturalmente, Alteza. S acho incrvel que uma biblioteca dessas ainda no tenha sido catalogada.
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As palavras da jovem soaram para o duque como uma crtica e, como sentisse uma inexplicvel necessidade de se justificar, ele respondeu:
- Acabo de tomar posse de Gore, e uma das primeiras providncias que tomei foi solicitar a vinda de algum experiente para fazer esse servio.
- Deve ser uma expectativa excitante para o senhor! Fico s imaginando quantas preciosidades devem estar escondidas nessas prateleiras.
Ela fez um gesto gracioso com a mo em direo aos livros, o qual o duque logo associou ao movimento harmonioso de uma bailarina.
Sem conseguir conter-se, comentou:
- A senhorita  to jovem. Ser que tem mesmo prtica num servio to especializado?
- Espero satisfazer a dvida de Vossa Alteza encontrando o mais breve possvel alguns livros que possam encant-lo.
- Pois bem, srta. Baron, estou pronto a dar a mo  palmatria. Por outro lado, tenho muita pressa de que esse servio esteja pronto.
- Por qu?
A pergunta direta de Ophelia pareceu surpreender o duque, e ele hesitou um pouco antes de responder.
Ophelia estava curiosa para descobrir se ele lhe diria a verdade: que desejava vender o que l houvesse de valor.
Depois de uma longa pausa, o duque disse:
- Talvez o sr. Hansard j lhe tenha contado que recebemos uma carta da Amrica que nos deixou meio preocupados.
Embora soubesse que o secretrio no revelaria nada a respeito sem sua permisso, o propsito do duque foi despertar o interesse dela para ver se completava o servio 
antes do prazo normalmente previsto.
- No, o sr. Hansard no comentou nada comigo.
- Pois bem, recebemos uma carta informando-nos que circulam rumores sobre a existncia de um original de Shakespeare em nossa biblioteca.
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- Mas se fosse verdade o senhor naturalmente saberia!
- Meu pai nunca teve grande interesse pelos livros, e permaneci muito tempo no exterior para saber algo sobre isso.
- Se realmente encontrssemos, valeria uma fortuna e no duvido que os americanos se dispusessem a pagar qualquer preo por uma obra dessas. Mas no consigo evitar 
a ideia de que, como Shakespeare era britnico, seu trabalho deveria permanecer aqui.
- Eu no disse que pretendia vend-lo - retrucou o duque, em tom spero.
Ophelia levantou os olhos para ele, com uma expresso de dvida.
Ele desviou os olhos dos dela. Depois, num impulso que no saberia explicar, declarou:
- Para ser sincero, srta. Baron, odeio pensar em me desfazer de qualquer coisa que pertena a Gore, mas estou precisando de dinheiro e talvez a venda de um original 
de Shakespeare possa ser a resposta a alguns de meus problemas.
Alguma coisa inexplicvel na expresso da jovem revelou ao duque o quanto a agradou ouvir a verdade.
Observando-a, ocorreu-lhe que ela era to linda que se tornava difcil deixar de falar dela e falar de seu servio.
Perguntou-lhe ento:
- Acredito que no seja frequente ausentar-se de casa, sem seu pai. Deve ser embaraoso para a senhorita viajar sozinha e se hospedar em casas alheias, sem uma acompanhante.
- Viajei sozinha apenas de Londres at aqui, Alteza. E sinceramente, meu pai achou que eu estaria perfeitamente a salvo aqui em Gore.
Linda como era, pensou o duque, seria perigoso estar sozinha onde quer que fosse, a no ser na casa de um cego.
Censurou-se ento por estar sendo ridculo e assegurou a si mesmo que uma jovem na posio da srta. Baron era perfeitamente capaz de cuidar de si mesma. No era 
como essas
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donzelas da sociedade que precisavam o tempo todo ser vigiadas e protegidas.
- Bem, vamos ao trabalho! - props ele, muito mais a si mesmo do que a ela. - A propsito, meu secretrio tambm recebeu uma carta parecida de uma conceituada livraria 
londrina, pedindo preferncia no caso de desejarmos efetuar a venda.
- Falou com mais algum a esse respeito?
- com ningum de fora.
S ento lembrou-se do dilogo provocado pela tia, uma noite, durante um jantar:
- Espero dormir melhor do que a noite passada - comentara ela. - Fiquei acordada o tempo inteiro por causa do vento.
- Deveria ter lido um pouco - dissera o primo, que sofria de artrite. -  o que sempre fao quando a dor em minhas pernas no me deixa dormir.
-  uma ideia. Preciso ver se descubro um bom romance,
- H uma grande variedade para escolher na biblioteca
- interviera Harry. - Ah, isso me lembra, Sandor, que alguns daqueles volumes caindo aos pedaos talvez valham um bom dinheiro no mercado.
- O que o faz pensar assim, primo?
Harry fizera um gesto como quem ia responder, mas, parecendo mudar de ideia, pusera-se a falar do ltimo romance de Elinor Glyn, que, segundo ele, chocara inmeras 
pessoas.
No restava dvida de que o primo tivera conhecimento do boato e por isso havia pedido a chave da biblioteca! Recomendou ento:
- Ao terminar o trabalho, srta. Baron, no final de cada dia, o sr. Hansard e eu gostaramos que a senhorita e seu pai trancassem a biblioteca. Assim, quando resolver 
subir, poderia, por favor, levar a chave at o escritrio dele? Um criado lhe mostrar o caminho.
- Obrigada, Alteza. Acho que  uma ideia prudente.
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Os livros podem ser to valiosos quanto quadros ou jias, e as pessoas geralmente se esquecem disso.
- Qual deles a senhorita particularmente prefere? perguntou o duque, charmoso.
- Como mulher, permita-me ser meio ambiciosa e dizer que gostaria de possuir todos os trs!
- No so apenas as mulheres que so ambiciosas.
- Realmente, mas no precisam, pelo menos, se mostrar to idealistas quanto os homens.
-  essa sua impresso? Pois sempre achei que as mulheres so as maiores defensoras dos ideais mais nobres, da serem verdadeiras guias ou fonte de inspirao para 
que os homens, pobres mortais, as sigam.
Havia uma certa ironia na voz do duque, que fez com que Ophelia compreendesse que ele no acreditava absolutamente no que acabava de dizer.
Ela soltou uma pequena gargalhada e disse:
- Vejo, Alteza, que no tem lido seus prprios livros. H neles relatos de feitos hericos e verdadeiras faanhas de bravura masculina que comoveram a humanidade.
Ophelia tinha em mente as palavras do pai sobre a bravura e as vitrias do duque.
Ela era uma verdadeira aficionada a tudo que dizia respeito  ndia e s lutas dos ingleses l. Lera todos os livros possveis sobre o assunto e se interessara por 
todos os artigos publicados no Illustrated London News.
Como se lesse seus pensamentos, o duque perguntou:
- Pensa que ainda esto acontecendo feitos de bravura em algum lugar do imprio britnico, como na ndia, srta. Baron?
Como ela permanecesse calada, o duque acrescentou:
- Tem algum interesse pela ndia?
- Sempre me pareceu um pas fascinante e adoraria visit-lo. J li tudo o que pude a respeito, inclusive a histria do budismo e, naturalmente, a traduo dos textos 
vdicos.
- E os entendeu?
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Ophelia dirigiu ao duque um olhar tmido.
- Talvez ache presunoso eu responder que sim, pois, como deve saber, foram um desafio para muitos acadmicos. Procuro, entretanto, l-los mais com o corao do 
que com a razo e creio que tenho me sado bem.
Ophelia falou baixinho, mais como se estivesse falando consigo mesma. Foi ento que notou que o duque a olhava com ar incrdulo.
- Durante todo tempo em que estive na ndia - disse ele, depois de um momento -, nunca conheci uma mulher que se preocupasse sequer em dar uma olhada nas tradues 
das escrituras antigas que para mim so de uma beleza indescritvel, jamais encontrada em qualquer outro lugar.
- Concordo com o senhor. Alguma coisa dentro de mim parece responder a cada palavra. Mesmo que no consiga captar o significado exato, emocionalmente sinto a beleza 
dele.
Ophelia falou olhando para o duque e, subitamente, no houve mais necessidade de que os dois continuassem se comunicando atravs de palavras.
Fez-se um longo silncio, em que foi mais eloquente o olhar que trocaram.
Abruptamente, ento, o duque, parecendo dar-se conta de seu procedimento e censurando-se, disse:
- Creio, srta. Baron, que a impeo de trabalhar. Por favor, concentre-se nas obras mais antigas da biblioteca e mantenha-me informado de seus achados.
Sem esperar pela resposta de Ophelia, voltou-lhe as costas e saiu imediatamente, como se desejasse criar uma distncia entre eles.
Ophelia ficou observando-o e, quando a porta da biblioteca se fechou, percebeu que estivera de respirao suspensa o tempo todo.
Ento aquele era o duque! Ento aquele era o homem que estava disposto a casar-se por dinheiro!
 primeira vista, lhe parecera frio, austero, assustador.
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Fora, entretanto, somente uma primeira impresso.
O duque era, sem dvida, uma pessoa muito atraente, de maneira diferente de qualquer outro homem que tivesse conhecido.
Talvez por sua pele muito queimada devido ao longo tempo em exposio ao sol, mas principalmente por causa de seus olhos acinzentados, perturbadores... inquietantes... 
que pareciam desnudar sua farsa.
- Qualquer coisa naquele homem a compelia a abrir seu corao e falar de seus sentimentos, o que era perigoso e arriscado.
A verdade  que o duque era muito diferente do que havia imaginado. To diferente que no conseguia descrever a impresso que tivera dele nem para si mesma.
O estranho era seu corao estar batendo descompassadamente e a presena dele ter-lhe causado a sensao de que se esvara todo o ar a sua volta.
Por que essa sensao?
A cabea de Ophelia insistia em formular a pergunta, e seu corao receava responder.
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CAPITULO IV
B
Ophelia teve dificuldade em conciliar o sono, repassando infinitamente as emoes do dia.
Como imaginava, haviam lhe destinado acomodaes no pavimento superior, na ala onde ficavam os cmodos que ela qualificara de "segunda classe", ou seja, adequados 
a pessoas da sua atual posio como filha de um simples bibliotecrio.
Embora simples, o quarto era espaoso e confortvel, dando para uma pequena sala de estar, na qual, segundo previra, faria as refeies sozinha.
No querendo perder um minuto para iniciar suas investigaes sobre o duque, Ophelia aproveitara a primeira oportunidade surgida, quando a governanta fora lhe mostrar 
seus aposentos, perguntando-lhe:
- Est aqui h muito tempo, sra. Fellows?
- Estou sim, minha filha. H mais de quarenta anos trabalho nesta casa.
- Deve ter visto muitas mudanas nesse tempo todo comentara Ophelia, estimulando-a a falar mais.
- Se vi! Infelizmente, poucas para melhor.
Ophelia ouvia atenta, sabendo que o comentrio era um prembulo para o desenrolar da histria daquela mulher. No se decepcionara.
Logo ficara sabendo que a sra. Fellows trabalhava desde muito pequena ali, da mesma forma que sua me havia feito.
- Tudo era grandioso quando o terceiro duque vivia. Havia sempre doze lacaios em servio, com perucas e luvas brancas que precisavam ser lavadas diariamente. Era 
comum ento receber-se de trinta a cinquenta hspedes na casa.
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- Devia ser festivo!
- Era trabalhoso, senhorita, essa  que  a verdade.
- O duque atual tambm recebe dessa maneira extravagante? - indagara Ophelia, embora soubesse a resposta.
- De forma alguma, senhora. As coisas mudaram muito. Pelo que ouvi dizer, Sua Alteza herdou um monte de dvidas e por todo lado so necessrios reformas e consertos.
- Quer dizer que a propriedade precisa de reparos? perguntara Ophelia, para encompridar o assunto. - Parece to majestosa!
-  porque acaba de chegar e no observou os detalhes, senhorita. H telhas faltando, rachas nas paredes, alm de que as cortinas e os tapetes esto em pssimo estado.
Ophelia achara graa no tom consternado da governanta. Como quisesse saber mais, fizera-se de ignorante:
- Estou surpresa. Sempre pensei que o duque fosse muito rico.
- A famlia era rica no passado, mas, como lhe falei, as coisas mudaram muito. H muitos nobres nessa situao hoje em dia. Pelo que tenho lido nos jornais,  por 
isso que muitos se casam com americanos.
-  verdade. Soube que tanto o duque de Marlborough quanto o duque de Leinster casaram-se com americanas.
- Espero que sejam felizes, senhorita, mas duvido.
- Por qu?
- Porque os americanos tm outro modo de pensar replicara a sra. Fellows, com um ligeiro desprezo na voz.
- No posso imaginar que Sua Alteza, por exemplo, tenha algo em comum com essas damas americanas, por mais ricas que sejam.
- Que tipo de mulher acha que agradaria Sua Alteza? - perguntara Ophelia, contente com o rumo da conversa.
A sra. Fellows rira.
- A menos que a situao tenha mudado nos anos em que esteve ausente, ele no encontrar a menor dificuldade
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para escolher. Desde que era um rapazinho, sempre teve muitas admiradoras.
- Ento por que ainda no se casou?
- Creio que no tinha condies de assumir um compromisso com seu soldo de soldado, senhorita. O falecido duque nunca foi muito generoso com os filhos, nem mesmo 
com o jovem marqus.
- O atual duque ento precisou lutar pela prpria subsistncia antes de receber a herana?
- De fato, senhorita. Cheguei at a ouvi-lo pedir algum dinheiro para o sr. Bateson, nosso mordomo, para poder ir a Londres uma tarde.
Aquela revelao parecia fantstica para Ophelia, mas estava bem de acordo com o que o pai havia lhe dito.
- Ficou feliz que o atual duque tivesse sido o herdeiro? Essa era a pergunta capital que desejava fazer  governanta, que se mostrou muito satisfeita ao responder:
- Para lhe falar a verdade, senhorita, sempre tive esperana de que o sr. Sandor se tornasse o herdeiro. O irmo dele, coitado, sempre foi muito doente. O sr. Sandor, 
porm,  um verdadeiro Hrcules e todos os seus sditos sempre tiveram respeito e admirao por ele.  realmente uma felicidade t-lo de volta a esta casa!
No restava dvida, pensou Ophelia, de que a preferncia da sra. Fellows sobre o duque no poderia ser melhor.
Havia, entretanto, muita coisa que ainda desejava saber, antes de decidir-se a casar-se com algum que estava tosomente interessado em seu dinheiro.
Arriscara-se muito at ento e precisava tirar o melhor proveito daquela aventura. Se seu pai suspeitasse do que estava acontecendo certamente ficaria furioso.
Impaciente de permanecer deitada, ruminando tantos pensamentos confusos ao mesmo tempo, Ophelia pulou da cama.
Ainda no eram sete horas da manh quando desceu.
Os criados que se movimentavam de um lado para o outro, limpando e espanando tudo, olharam-na surpresos.
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Ophelia desejou-lhes bom dia e saiu pela porta da frente, sendo recebida por uma gelada rajada de vento.
Abotoou o casaco de l, com gola e punhos de pele, sabendo que provavelmente estranhariam v-la vestida com um agasalho to dispendioso sendo filha de um bibliotecrio. 
Desconfiada como Martha era, porm, no fora possvel pegar qualquer coisa mais simples ou modesta uma vez que, supostamente, estava indo para a casa de lady Grayson.
- Se encontrar o duque, dificilmente ele notar minhas roupas - disse a si mesma.
Como j estivesse informada sobre a localizao da cavalaria, caminhou rapidamente em direo a ela.
Transpondo um alto porto em arco, deparou-se com um longo corredor, com baias de ambos os lados.
Se a casa estava em pssimo estado de conservao, o mesmo no se dava com a cavalaria, cuja pintura era recente.
Como as partes superiores das portas estivessem abertas, Ophelia foi parando de uma em uma, avaliando a qualidade dos cavalos, afagando um ou outro. Gostaria que 
o pai estivesse ali. Afinal, era um entendido no assunto.
- bom dia, madame!
Um dos cocheiros havia se aproximado de Ophelia, sem que ela o notasse.
- Est admirando Red Duster?  realmente um belo cavalo! Pelo menos  o que Sua Alteza sempre diz. Se me permite, preciso colocar a sela nele, pois Sua Alteza vai 
mont-lo.
Ophelia ficou de lado para que o cocheiro entrasse na baia e ocorreu-lhe que seria melhor ir embora e evitar um encontro com o duque to cedo.
No resistiu, porm,  tentao de entrar por um minutinho na baia e olhar mais uma vez Red Duster. Tarde demais!
- bom dia, srta. Baron! Entende tanto de cavalos quanto de livros?
Era o duque. Ophelia voltou-se para fit-lo e sentiu que
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o flego lhe fugia ao v-lo to atraente naquele traje de nontaria.
- Adoro cavalos! Pelo que observei sua cavalaria dispe de belos animais.
- Tenho a impresso de que gostaria de cavalgar num deles.
Os olhos de Ophelia iluminaram-se por um momento. Ento ela lembrou-se de seu papel naquela casa e disse:
- Talvez o senhor ache que eu esteja... negligenciando o trabalho que me espera na biblioteca.
- Ainda  muito cedo e sei que os ingleses no comeam a trabalhar quando o primeiro galo canta, como ramos obrigados a fazer na ndia.
- Ento est de p o convite para que cavalguemos juntos?
- Dou-lhe dez minutos para se trocar! Se demorar mais do que isso, receio que ter de faz-lo sozinha.
Ophelia no respondeu. Limitou-se a sorrir para o duque, levantou um pouco a saia e saiu correndo em direo  casa.
Habituada que estava a trocar de roupas depressa, pois o pai no gostava de esperar, ela s lamentou no ter Martha consigo para ajud-la.
Felizmente, ao entrar no quarto, encontrou com uma criada, que havia lhe levado uma xcara de ch, surpreendendo-se de que tivesse sado to cedo.
- Por favor, me ajude - pediu-lhe, suplicante, tirando o casaco e desabotoando o vestido.
A querida Martha no tinha colocado apenas um traje de montaria na mala, mas dois. Ophelia escolheu o de corpete justo, que lhe modelava o corpo, no estilo usado 
pela imperatriz da ustria quando fora caar no Shrise e em voga desde ento.
Muito coquete, sabia que a roupa lhe caa  perfeio, realando-lhe a cintura fina e o contorno delicado dos seios.
Rapidamente, tratou de prender os cabelos na nuca e colocou um gracioso chapu.
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Ao descer correndo as escadas, restavam-lhe ainda dois minutos.
L fora, j a aguardavam o duque, montado num soberbo animal, e o cocheiro, ao lado do cavalo que ela iria montar.
Num movimento ligeiro, Ophelia firmou o pezinho no estribo e voou para a sela. Depois que o cocheiro ajudou-a a endireitar a saia, levantou as rdeas e tratou de 
emparelhar seu cavalo com o do duque.
- Preciso cumpriment-la por sua pontualidade!
- Isso faz aumentar meu desejo de desenterrar algum tesouro precioso de sua biblioteca!
- Estou torcendo para que realmente o faa, mas ontem  noite cheguei  concluso de que seria um erro esperar que os deuses fossem to generosos comigo, quando 
j me deram tanto.
O duque olhava o parque  sua frente, e Ophelia compreendeu que ele se referia  sorte que tivera de se tornar duque de Gorleston.
- Imagino que desde pequeno sonhasse com o dia em que tudo isso se tornaria seu - disse ela, baixinho.
Ele a olhou surpreso.
- Por que acha isso?
- No acredito que haja algum, principalmente cujo nome seja Goring, que no desejasse possuir Gore. Sem dvida,  a propriedade mais linda que jamais imaginei.
- E  assim que desejo conserv-la.
- Portanto, se eu obtiver sucesso na minha caa ao tesouro, Gore estar salva.
- , tudo o que desejamos na vida tem seu preo... Aps dizer isso, o duque achou muito estranho manter
aquela conversa com uma jovem desconhecida e, da mesma maneira que no dia anterior, mudou abruptamente de assunto.
- Acho melhor aproveitarmos nosso passeio, srta. Baron. No havia dvida de que os cavalos comeavam a 68
impacientar-se, mas Ophelia compreendeu que o duque, na verdade, no estava querendo prolongar a conversa.
De qualquer maneira, havia feito uma descoberta importante: Gore significava muito para ele.
Cavalgando ao seu lado, no podia deixar de sentir-se meio ctica a seu respeito.
Embora fosse voz corrente que ele no tinha condies de levar a mesma vida do pai, talvez ambicionasse entretenimento de natureza diferente.
Por mais que lhe agradassem cavalos, talvez no apreciasse corridas. Quem sabe no estaria interessado em dinheiro para poder passar mais tempo em Londres, divertindo-se.
A ideia no parecia invivel depois de ele ter ficado sete anos no exterior.
No entanto, Ophelia no conseguia v-lo como um habitue de portas de teatro,  espera de coristas glamourosas para lev-las a jantar no Romano.
Por ter sido filha nica, Ophelia estava habituada  companhia de adultos.
" Embora no tivesse permisso de participar das festas e banquetes em sua casa, sempre que o pai recebia para jantar apenas dois ou trs amigos, ela os acompanhava, 
recolhendo-se a seu quarto to logo terminasse a refeio.
Como a considerassem ainda uma criana, tinha ento a oportunidade de ouvir muitos comentrios que no fariam em sua presena, caso a julgassem adulta.
- Souberam que o Reggie se engraou com uma corista que est lhe tirando cada tosto que possui? - perguntara numa ocasio um dos amigos do pai.
- Eu a conheci - comentara outro, rindo. - Vale tudo o que Reggie puder dar a ela.
- Ah, ele  um tolo! - interviera o pai. - Se a mulher dele tivesse juzo, bateria o p e no consentiria com essa situao.
- Mesmo que Enid fechasse a bolsa, de nada iria adiantar.
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- Ela deve estar cansada de v-lo gastar dinheiro com essas mulheres - dissera o coronel, em tom de censura
- Para dizer a verdade, acho que ela est cansada do Reggie, mas ele no a larga porque precisa do dinheiro dela, e Enid no o larga porque gosta do ttulo de condessa.
Ao lembrar-se dessa conversa, Ophelia jurou a si mesma que, se aquele era o futuro que a aguardava, jamais concordaria em se casar com o duque, pouco importando 
o que o pai argumentasse.
Os cavalos comeavam agora a trotar.
Ophelia lanou um olhar de esguelha ao duque e concluiu que ele no parecia o tipo de homem que corresse atrs de coristas. Mas como podia saber do que os homens 
gostavam?
Como podia julgar um homem apenas por sua aparncia quando todos  sua volta deviam viver a bajul-lo?
"Ele deve ser extremamente convencido", deduziu, sentindo uma vontade inexplicvel de feri-lo.
- No consigo deixar de pensar, Alteza, no porqu de estar tentando vender os verdadeiros tesouros que seus ancestrais acumularam atravs dos sculos. No poderia 
trabalhar para conseguir o dinheiro de que precisa?
A pergunta o deixou espantado.
- Trabalhar? O que quer dizer com trabalho?
- Estou perfeitamente ciente de que para os nobres o trabalho depe contra sua condio, mas sempre ouvi dizer que os americanos, por terem trabalhado duro, fizeram 
grandes fortunas. Sei tambm que muitos ingleses voltaram da ndia muito mais ricos do que foram.
- Isso  vlido para os que trabalharam na Companhia das ndias Orientais no comeo do sculo, mas no  fcil enriquecer a menos que se seja corrupto.
Pelo tom crtico com que falou, Ophelia compreendeu que isso era algo que o duque no admitiria em quaisquer circunstncias.
Como se pudesse captar o fio de seu pensamento, ele prosseguiu:
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- Quanto aos americanos,  diferente. Os pioneiros encontraram um pas inexplorado, com reservas naturais ilimitadas. Homens de viso, como os Astor, compraram terras 
que, posteriormente, tornaram-se extremamente valiosas, enquanto outros descobriram riquezas naturais, ficando milionrios automaticamente.
- Refere-se aos que encontraram petrleo em suas propriedades - comentou Ophelia, lembrando-se do av.
- Exatamente! Eu, porm, no tive no passado dinheiro algum para investir em terras ou aes, portanto meus nicos bens no so negociveis.
- Mas, naturalmente, tem sade e vigor e, o que provavelmente  mais importante, um crebro privilegiado.
Surpreso o duque fitou-a mais uma vez, piscando os olhos.
- Tenho a sensao, srta. Baron, que me censura e, a menos que tenha algum motivo para me reprovar, no entendo o porqu.
- Ora, Alteza, longe de mim essa pretenso - Ophelia apressou-se a dizer, com uma ligeira ironia na voz, embora no o fizesse de propsito.
O duque notou e disse:
- Interessante, se no me desaprova, gostaria ento de compreender o motivo de suas crticas.
- Vossa Alteza est deturpando o que eu disse casualmente...
Sentindo que havia sido indiscreta e desejando evitar aquele assunto, Ophelia instigou o cavalo com o p, obrigando o duque a fazer o mesmo para acompanh-la.
Somente algum tempo depois de terem se aproximado da casa, ele voltou a abordar o assunto:
- Estive pensando no que me disse, srta. Baron, e conclu que, por ter visto seu pai trabalhar muito na profisso que escolheu, acha natural que todos os homens 
sigam o exemplo dele. No meu caso, porm, minha formao foi toda no Exrcito e a experincia tem mostrado que o que no falta no mercado so velhos soldados sucumbindo 
na obscuridade.
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- Jamais poderia permitir que isso lhe acontecesse!, Ao proferir de maneira eloquente essas palavras, Ophelia
no olhava para o duque e sim para o espetculo magnfico que Gore apresentava  sua frente quando, irrompendo pela manh, o sol banhava a casa, emprestando uma 
tonalidade dourada s janelas, iluminando as altas chamins e delineando os contornos da vasta extenso do telhado contra o cu.
O espetculo era realmente lindo e majestoso, impelindo Ophelia a falar de corao:
- No pode perder isto.
- Concordo, me sinto disposto a tudo para preservar o que me pertence de direito.
As palavras do duque soaram como um verdadeiro voto.
Ophelia deu-se conta de que, embora sem a menor inteno, provavelmente acabara por persuadir o duque a se casar para conservar Gore.
Teve mpetos de gritar bem alto que no fora esse o seu propsito e que, ao sugerir que trabalhasse, pensava que o fizesse com as mos e a inteligncia, visando 
alcanar o que desejava sem depender de seu nascimento nobre ou de um casamento por convenincia.
Instintivamente, sabia que o duque passara a ver no casamento um meio de poder trabalhar por Gore e que acabava! de assumir um compromisso consigo mesmo sobre o 
quaj estava indeciso at sua chegada.
"Que tola fui! "
Ocorreu-lhe ento que o cumprimento desse voto ainda estava em suas mos.
Se, ao final desses quatro dias, resolvesse no se casar com o duque, por mais impossvel que pudesse lhe parecer agora, acabaria encontrando um meio de no acompanhar 
o pai na visita em que estava sendo aguardada como "rica herdeira".
Cavalgaram o resto do caminho em silncio, sendo notrio que o duque estava mergulhado em pensamentos.
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Ao chegarem em frente  casa, ele pareceu voltar a si, dizendo convencionalmente:
- Espero que o passeio tenha sido to agradvel quanto imaginava, srta. Baron.
- Foi mesmo, Alteza! Sou-lhe muito grata.
- Sinta-se  vontade para pedir um cavalo quando desejar cavalgar - acrescentou ele, corts.
Dois empregados da cavalaria correram em direo a eles. O duque desmontou, no se preocupando em ajud-la. Estava no meio da escadaria que levava  porta de entrada 
quando Ophelia o alcanou.
- Se tiver qualquer coisa para me mostrar, srta. Baron disse num tom de voz que lhe pareceu diferente -, o sr. Hansard saber onde me encontrar.
- Obrigada, Alteza.
Subindo os demais degraus, desejou intimamente que o duque a convidasse para tomar o caf da manh com ele.
Ele, porm, entregou o chapu, as luvas e o chicote para um lacaio, atravessando o hall sem se voltar, ignorando por completo sua presena.
Ophelia subiu as escadas, dirigindo-se a seu quarto, sem entender a razo de sentir-se deprimida. Experimentava uma sensao semelhante  de chegar ao final da leitura 
de um livro com final infeliz.
Ophelia ps-se a verificar os livros da biblioteca, sem se preocupar em catalog-los, como o sr. - Baron o faria. Desejava, isso sim, encontrar o mais rpido possvel 
um exemplar de valor, mesmo que no fosse de Shakespeare, para alegrar o duque.
Ao percorrer as prateleiras, logo percebeu que estavam em completa desordem. Os livros haviam sido colocados ali sem o menor critrio.
Um livro publicado havia dois ou trs anos estava ao lado de outro impresso no sculo dezesseis, ou de um manuscrito
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apagado e meio esfrangalhado, apesar de no ser to antigo quanto sua aparncia demonstrava.
Pensava que os rumores de que havia uma mina de ouro inexplorada nas prateleiras da biblioteca no passavam realmente de boatos, quando a porta se abriu.
Uma estranha euforia invadiu Ophelia, imaginando que fosse o duque. Apesar de lamentar a maneira como havia acabado o "duelo" de palavras que tivera com ele pela 
manh, ansiava por falar-lhe novamente.
O homem que cruzava a grande sala em direo a ela, contudo, era-lhe desconhecido. Alto e moreno, tinha um certo qu do duque, embora no tivesse a mesma aparncia 
charmosa e imponente  primeira vista.
Ao aproximar-se, o estranho no escondia sua surpresa.
- Sabia que um bibliotecrio estava para chegar a Gore, mas no esperava que fosse uma mulher e menos ainda algum to linda!
Ophelia achou graa da visvel surpresa do homem e da maneira como falou.
- bom dia, senhor. O bibliotecrio  meu pai, mas, como teve um impedimento de ltima hora, mandou-me na frente.
Sem tirar os olhos dela, o estranho estendeu-lhe a mo.
- Permita-me que me apresente. Sou o capito Harry Goring, primo do duque, e agora sei que  a srta. Baron. Sinto-me encantado por conhec-la.
Ophelia deu-lhe a mo, sorrindo, mas, como o capito Goring a retivesse um pouco alm do necessrio, sentiu que o primo do duque no lhe agradava.
Embora no soubesse especificar, havia qualquer coisa de ameaador naquele homem.
O pai sempre a censurava por formar, com muita rapidez, opinio sobre as pessoas que conhecia.
- Como pode dizer que no gosta do sobrinho do general Burns se conversou com ele por apenas dez minutos? - perguntara-lhe o coronel, umas poucas semanas antes, 
quando regressavam para casa da visita a um vizinho.
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- Foi o suficiente para saber que no desejo aprofundar meus conhecimentos com ele e, se eu fosse o general, trancaria meus talheres de prata a sete chaves.
Ela rira da prpria observao, mas o pai lhe respondera zangado:
- Esses julgamentos precipitados so ridculos e nada adequados a uma jovem de sua idade!
- O senhor sempre me incentivou a falar francamente o que penso das pessoas, papai, e tambm sempre admitiu que, embora duvidasse de muitas das minhas opinies, 
o tempo provou estarem certas.
O coronel calara-se, pois sabia que era a pura verdade. A filha tinha o estranho dom de perceber, em profundidade, o carter de homens e mulheres, to logo os conhecia.
Como achava que era um atributo muito pouco desejvel em algum to jovem, dissera-lhe:
- Acho que  um hbito que no deve cultivar. Pelo contrrio, procure aceitar as pessoas pelo que aparentam ser.
- Garanto-lhe que gostaria que assim fosse - replicara Ophelia -, mas s vezes surpreendo-me descobrindo que, sob a fachada que ostentam para o mundo, h uma personalidade 
bem diferente e, invariavelmente, nada agradvel.
Na tentativa de acatar a sugesto do pai e ser exatamente o tipo de filha que ele desejava, procurava ignorar o que chamava de seu "sentido perceptivo".
Era impossvel, porm, deixar de lhe dar ouvidos quando esse sentido lhe dizia que Harry Goring, o primo do duque, no era absolutamente quem aparentava ser.
- Como podia eu imaginar - dizia ele - que bibliotecrios se parecessem com voc? Asseguro-lhe que, daqui por diante, vou esmiuar todas as bibliotecas, todos os 
museus, curioso com quem eu possa encontrar.
- O senhor  muito galante, mas receio, capito Goring, que no possa parar para conversar, pois h muito servio a fazer e quero come-lo antes da chegada de meu 
pai.
- Ambos vo levar anos para catalogar todos os livros
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aqui existentes. Isso quer dizer que vamos ter muito tempo pela frente para conversar e nos conhecermos melhor. H uma coisa que gostaria de lhe perguntar, srta. 
Baron.
Ophelia imaginou que aquele homem estava querendo flertar com ela, mas estava decidida ano encoraj-lo. Tirou um livro da prateleira. Embora fosse um rico volume 
de poesias de lorde Byron, no tinha nada de raro.
- J encontrou o original de Shakespeare?
- No - respondeu Ophelia, secamente, no querendo prolongar o assunto.
- Vai ser emocionante quando ach-lo.
- Duvido que aqui exista esse original.
- Por que diz isso?
- Porque, se existisse, certamente teriam algum registro dele nos ltimos cem anos.
- Acredito que meu primo tenha lhe dito que h fortes rumores de que esteja em Gore, havendo inclusive colecionadores na Amrica desejosos de compr-lo.
Ophelia achou estranho que aquele homem soubesse tanto a respeito do assunto e no gostou do tom ganancioso de sua voz.
Aproximando-se um pouco mais dela, ele disse:
- Tenho uma sugesto a lhe fazer, srta. Baron. Sinto que tem esprito esportivo e vai me ajudar a fazer a surpresa que quero para meu primo.
Ophelia no respondeu, continuando a folhear o livro que tinha na mo.
- Dentro de uma semana mais ou menos,  o aniversrio do duque - prosseguiu Harry, ignorando o silncio dela.
- No posso imaginar nada que o alegrasse tanto quanto a descoberta desse volume. Tenho certeza de que est por aqui. Poderamos dar a ele como surpresa.
Enquanto o capito falava, Ophelia viu, como se tivesse uma bola de cristal, exatamente o que ele planejava fazer. Mal acreditando na convico que crescia dentro 
dela,
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de que o capito no passava de um mau-carter, perguntoulhe, levantando os olhos com ar ingnuo:
- Qual  sua sugesto?
- Tem mesmo esprito esportivo! O que vamos fazer  o seguinte, srta. Baron. No momento em que achar o original, no diga nada a ningum, a no ser a mim. vou ento 
providenciar para que seja feito um lindo pacote de presente e, no dia do aniversrio do duque, to logo tenha tomado seu caf da manh, o entregaremos a ele.
Ophelia no teceu comentrio algum. Harry Goring continuou, animado:
- J pensou como ele vai vibrar de prazer? No fao ideia do valor de mercado de um original de Shakespeare, mas tenho certeza de que, em Nova York, sero feitas 
inmeras ofertas, uma tentando superar a outra, na ansiedade de possuir algo to raro.
- Talvez fosse... errado - disse Ophelia, mostrando-se hesitante -, no caso de fazer uma descoberta to excitante, no comunicar'ao duque que est empregando meu 
pai... e eu.
- E estragar a surpresa? Como vejo que, alm de linda,  inteligente, sei que compreende que nenhum outro presente daria maior prazer ao meu primo do que este, que 
permitiria  ele efetuar as muitas reformas e reparos que so vitais, para a conservao da casa da famlia.
- Sim... compreendo... - Ophelia concordou, com uma certa dvida.
- Vamos ser scios nisso - Harry insistiu, em tom persuasivo -, e prometo-lhe que, se fizer o que lhe peo e me ajudar a tornar meu primo um homem feliz, vou recompens-la 
com um presente.
Enquanto falava, ele se aproximou um pouco mais de Ophelia.
- Acho que turquesas assentariam lindamente em sua pele alva, alm de darem sorte.
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Ophelia procurou afastar-se dele, voltando-se para recolocar o livro de Byron na prateleira.
- Est de acordo? - perguntou ele, incerto de sua resposta.
- Gostaria de pensar no assunto, capito Goring. Apesar de compreender seu desejo de agradar a seu primo, sei que meu pai no aprovaria qualquer atitude que no 
fosse inteiramente leal.
- Ora, vamos! No posso acreditar que v me decepcionar e estragar a surpresa.
- De qualquer jeito, h sempre a possibilidade, que no deve ser desprezada, de que eu no encontre coisa alguma e tudo no passe de boato.
Ophelia notou a expresso de desapontamento estampada no rosto do capito Goring e compreendeu que ele tinha um interesse muito pessoal em que o original fosse achado.
- Bem, examine esse velhos volumes o mais rpido possvel. Tenho certeza de que aparecer alguma coisa boa. Voc  bonita demais para no ter sorte.
- vou fazer o possvel.
- Se seu "possvel" der certo, como imagino, no vai passar seu scio para trs, no ?
- J lhe disse que pensarei no assunto.
- Ento pense tambm nas turquesas que vou lhe dar. Uma jovem bela como a senhorita deve ter jias. Quero ser o primeiro a faz-la brilhar com elas.
-  muita bondade sua.
- Sei que vai fazer por merecer - replicou Harry, acrescentando em tom mais baixo: - Que tal nos encontrarmos no jardim hoje  noite, antes do jantar? H um pequeno 
caramancho no final do gramado, atrs das rvores. Se sair antes de escurecer completamente, no ter dificuldade de encontrar o caminho e eu a trarei de volta 
depois.
Ophelia no o encarou, temendo que ele pudesse ver a expresso de desprezo em seus olhos. Disse to-somente:
- Gostaria de pensar tambm sobre isso, capito Goring.
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- vou esper-la e garanto-lhe que no vai se arrepender. Ele olhou para a porta sobre os ombros, parecendo recear
que algum pudesse encontr-lo na biblioteca.
Um instinto de perigo advertiu Ophelia de que ele pensava se deveria tentar beij-la ali, ou se deixaria para faz-lo  noite.
- No se esquea, vou esper-la no caramancho s dezessete e trinta. At l deve ter terminado seu dia de servio aqui.
Sem esperar resposta ou olhar para trs, ele encaminhouse para a porta e saiu, fechando-a atrs de si.
Ophelia suspirou aliviada. Escapara por um fio de ter de lutar de maneira indigna contra um homem que lhe era desprezvel e indesejado.
Seu sexto sentido a prevenia de que aquele homem podia ser perigoso no somente para ela, como tambm para o duque.
No tinha dvidas de que, se procedesse como ele lhe pedira, imediatamente o capito desapareceria, levando consigo o cobiado original de Shakespeare.
Talvez devesse contar ao duque sobre a sugesto que lhe fizera.
Pensando melhor, porm, concluiu que era pouco provvel que ele acreditasse nela. Se chamado a confirmar as suspeitas levantadas, o capito evidentemente diria que 
desejava apenas fazer-lhe uma bela surpresa de aniversrio.
"Melhor no dizer nada e ficar de sobreaviso", decidiu Ophelia.
Depois de almoar sozinha, sentindo-se ainda mais deprimida e desejosa de compartilhar da companhia do duque, Ophelia voltou  biblioteca e recomeou a examinar 
livro por livro, encontrando vrios de extremo interesse, mas no de grande valor.
Passadas algumas horas, o desnimo abateu-se sobre ela, fazendo-a se perguntar se aquela histria toda no teria sido
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inventada pelo prprio capito Goring, com uma finalidade misteriosa.
Recolocava na prateleira mais um livro, sentindo-se bastante irritada, quando a porta da biblioteca tornou a se abrir e, ao voltar-se, viu que dessa vez seu visitante 
era o duque em pessoa.
Compreendeu ento que h horas esperava que ele chegasse para ver como ia se desenvolvendo seu trabalho.
 aproximao do duque, o corao de Ophelia disparou de maneira estranha e ocorreu-lhe estar realmente feliz com a presena dele ali.
Seus olhares se encontraram. Parados um em frente ao outro, no foram necessrias palavras para que ela compreendesse que o duque tambm no aguentara ficar muito 
tempo sem v-la.
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CAPTULO IV
com grande euforia, Ophelia procurava um vestido para usar.
Sentira uma alegria incontida quando o duque a convidara para jantar com ele e com o capito Goring, embora estivesse consciente de que no o faria se a considerasse 
uma lady, pelo fato de estar desacompanhada.
No entanto, no podia nem se queixar, uma vez que ela mesma engendrara aquele plano e, como filha de um bibliotecrio, no era de admirar que a julgasse to pouco 
importante a ponto de nem questionar a ausncia de uma mulher mais velha ao seu lado, impondo maior respeito  sua presena naquela casa.
Decidida, porm, a saborear ao mximo o doce prazer daquela experincia nova, Ophelia recusou-se a continuar tecendo consideraes sobre o que quer que pudesse empanar 
a alegria daquele jantar.
Apesar de caros e graciosos, todos os seus vestidos eram simples, no havendo neles a sofisticao dos modelos em moda.
Finalmente, escolheu um dos modelos favoritos do pai. Todo branco, tinha a saia enfeitada por fitas de um azul muito suave.
Um lao da mesma cor ornamentava-lhe os cabelos, presos no alto da cabea num chignon.
Sua aparncia no poderia ser mais jovem e inocente, mas, ao mesmo tempo, de uma elegncia indisfarvel.
Ciente de que cometia um ultraje do ponto de vista social,
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ao descer as escadas Ophelia teve a ntida sensao de estar participando de uma pea de teatro.
Como terminaria ela no ousava perguntar nem a si mesma. S sabia que a dominava uma grande excitao e sentia-se como se tivesse asas e pudesse voar para um cu 
cheio de estrelas.
"Se depois eu for punida pelo meu procedimento, juro que no me queixarei! "
O duque estava sozinho no Salo Azul, no qual, segundo o mordomo fora avis-la, deviam encontrar-se antes da refeio.
Ao entrar, ela no pde deixar de pensar que o brocado azul das paredes e o azul das cortinas formavam o cenrio perfeito para seu vestido e para o dourado de seus 
cabelos.
Ocorreu-lhe ento que estava sendo pretensiosa e que o duque somente quisera ser gentil porque, caso ela encontrasse aqueles livros raros, todo seu futuro se alteraria. 
Portanto, no havia nada de mais profundo ou pessoal naquele convite.
Isso lhe dizia a cabea, mas seu corao, batendo descompassadamente, dizia-lhe algo bem diferente.
Ophelia caminhou sobre o luxuoso tapete, e a luz-das velas nos candelabros de cristal refletiu-se em seus cabelos, fazendo-os brilhar.
A camareira que a ajudara a vestir-se comentara que,  noite, o duque preferia a luz das velas  nova luz eltrica que o pai instalara na casa por um alto custo.
- Ah, luz de velas! Favorece as mulheres mais do que qualquer outro tipo de iluminao.
- Talvez favorea a senhorita, com seus cabelos dourados. Sabe que com esse vestido maravilhoso ficou parecida com uma princesa de contos de fadas?
Ophelia sorrira diante do elogio.
Atravessando a sala, podia sentir que o duque no desviava os olhos dela.
Parando a alguns passos dele, levantou os olhos, encarando-os. Subitamente, teve a sensao de que o mundo havia
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parado e no existia nada ali, alm dos dois: o encontro mstico de duas pessoas, atravs do tempo e do espao.
O duque no dizia nada, mas seus olhos eram to penetrantes que pareciam ler em sua alma.
Ento, quando os dois pareciam alcanar a eternidade, a porta se abriu e Harry Goring entrou, desfazendo o encanto do momento.
- Espero no estar atrasado! No quero perder nem uma taa de champanhe, Sandor!
- Claro que no - respondeu o duque, automaticamente, sua voz soando como se viesse de uma grande distncia.
Mal acabava de responder, surgiu o mordomo trazendo uma garrafa de champanhe dentro de um balde de gelo. Logo atrs vinha um lacaio carregando uma bandeja de prata 
com taas de cristal.
Agora trs pessoas participavam da pea, desempenhando impecavelmente seus papis.
O jantar foi servido numa sala menor, cujas paredes eram pintadas de verde-gua. A iluminao consistia de dois magnficos candelabros  mesa e mais quatro em aparadores 
laterais.
A chama das velas tremeluzia nos retratos dos ancestrais dos Goring que decoravam as paredes, suavizando a dureza de suas feies, tornando-as bondosas, ao invs 
de crticas ou acusadoras.
O duque sentou-se  cabeceira da mesa, numa cadeira de espaldar alto, em cujo encosto estava incrustado o braso da famlia.
Ophelia teve a sensao de que o rosto dele confundia-se com os de seus antecessores, numa mistura de passado e presente, restando a incgnita com relao ao futuro.
Devido  presena de Harry Goring, o momento de introspeco logo estava encerrado. Era difcil manter-se srio com ele, pois, muito astuto, o capito logo assumiu 
o esperado papel de animador, divertindo-os com histrias sobre as 83

Esquisitisses da  famlia e de gente importante que conhecera em Londres. Tendo estado muito tempo ausente, as pessoas eram to estranhas para o duque quanto para 
Ophelia, mas, como Harry fosse um timo contador de histrias, tornava-as reais, humanas e divertidas, fazendo-os rir sem parar.
Quando o excelente jantar terminou e os criados se retiraram da sala, Harry levantou o copo, num brinde.
"- No acha, Sandor, que devemos fazer uma homenagem a nossa encantadora convidada e desejar-lhe sorte na procura do tesouro escondido, que por enquanto no passa, 
infelizmente, de um mito?
- Naturalmente. Era justamente o que eu ia sugerir. Levantando o prprio copo, acrescentou: - S que um brinde , "srta. Baron" me parece muito formal... A propsito, 
a senhorita ainda no me disse seu nome.
 O duque encarou-a fixamente enquanto falava.
Sem pensar nas consequncias de suas palavras, ela disse:
"- Meu nome  Ophelia.
No instante seguinte, caiu em si. Havia sido indiscreta ao extremo. S restava rezar para que o assunto se encerrasse a. Como a expresso dele continuasse a mesma, 
percebeu aliviada que Sandor no devia saber o primeiro nome de sua convidada da prxima semana. O pai provavelmente no havia mencionado.
- Muito romntico - observou o duque.
- E to lindo quanto a dona! - completou Harry Gorm, dirigindo-lhe um olhar sedutor.
Ophelia, porm, ainda observava o duque, pensando que fora uma falha desastrosa ter dito o nome verdadeiro.
Sentia-se to feliz que por um minuto esquecera que estava apenas representando um papel, digno de qualquer dos livros que examinara  tarde.
- A Ophelia! - brindou o duque. - Que ela possa trazer Sorte e felicidade a esta casa!
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- A Ophelia! - repetiu Harry, fazendo o nome soar dramtico.
Ele levantou o copo, sem tirar os olhos dela, mas Ophelia desviou os seus.
- Obrigada. Apenas espero no desapont-los. Depois do jantar, os trs passaram para um outro salo e
continuaram a conversa, ou melhor, continuaram ouvindo as histrias de Harry.
Crescia dentro de Ophelia a vontade de ficar sozinha com o duque.
Embora fosse impossvel deixar de rir do que Harry dizia, havia tanto para falar com o duque! Gostaria, por exemplo, de fazer-lhe perguntas sobre a ndia e de saber 
se havia lido livros que julgara fascinantes.
Aparentemente, contudo, no havia a menor chance de o capito deix-los a ss, e Ophelia tinha a inequvoca sensao de que o duque desejava o mesmo que ela.
"Devo estar imaginando coisas, disse ela a si mesma. "Se quisesse conversar comigo a ss, ele poderia t-lo feito quando foi  biblioteca. "
O duque, porm, depois de lhe fazer alguns comentrios corriqueiros sobre o andamento do trabalho, somente lhe perguntara se aceitaria jantar em companhia dele e 
do primo.
Vendo-o sentado na poltrona oposta a sua, Ophelia imaginou como seria maravilhoso se pudessem conversar no somente sobre o passado, mas tambm sobre o futuro.
Ao cavalgarem juntos pela manh, havia se estabelecido entre os dois um clima de relativa intimidade, que o duque agora parecia querer evitar, quase como se tivesse 
medo dela.
A noite transcorria perfeita, mas quando, relutante, Ophelia sugeriu que estava na hora de se recolher, ele no fez qualquer tentativa de det-la.
Uma vez em seu quarto, Ophelia fechou a porta.
Nunca passara uma noite to divertida em toda a sua vida.
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"Gosto dele", disse a si mesma, no silncio de seu quarto. "Gosto dele... e muito. "
Surgiu ento em sua mente uma pergunta que ela no quis responder.
Tocou uma sineta e, imediatamente, veio uma criada que a ajudou a despir-se.
Quando tirou os grampos da cabea e os cabelos caramlhe pelos ombros como uma cascata de ouro, a moa no se conteve:
- Seus cabelos tm uma tonalidade de loiro que jamais vi.
- Parece que herdei de antepassados suecos.
- Ah, ento isso explica tudo! A senhorita no tem tipo de inglesa.
Ophelia riu intimamente.
Sempre que se olhava no espelho, com os longos cabelos soltos at a cintura, imaginava que era uma das sereias que tentaram enfeitiar Ulisses e das quais ele conseguira 
valentemente escapar, amarrando-se ao mastro de seu barco.
"Ser que o duque me considera uma sereia? "
Afastou esse pensamento, dizendo a si mesma que estava sendo muito pretensiosa e que ele to-somente esperava que ela lhe fosse til, da a razo de estar sendo 
gentil, embora sem tentar cortej-la, como o capito Goring fazia abertamente.
"Ele  ganancioso. Mas, se acha que pode ludibriar o duque e ficar com o original de Shakespeare, est muito enganado! "
Ophelia achou graa de estar levando o assunto de maneira pessoal.
Supondo-se que encontrasse o livro que o duque queria. Qual o significado que teria para ela? Ser que ele cancelaria o convite que havia feito ao seu pai?
"Tenho apenas amanh para encontrar o que ele deseja", pensou subitamente em pnico.
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Assim que a camareira sara do quarto, Ophelia havia se deitado, mas estava achando impossvel dormir.
Mil pensamentos agitavam-lhe a mente, mas persistia a dvida quanto ao que o duque faria, caso no encontrasse o ambicionado original, quando a visse chegar com 
o coronel e descobrisse sua verdadeira identidade.
Deveria nessas circunstncias aceitar o convite? Seria mais prudente arranjar uma desculpa que convencesse o pai e no ir? Por outro lado, resistiria a ficar sem 
v-lo novamente depois de t-lo conhecido?
As perguntas se sucediam num turbilho e Ophelia no conseguia encontrar qualquer resposta.
De repente, no escuro de seu quarto, uma ideia iluminoulhe a mente, como se fosse uma luz vinda do cu para orientar-lhe o caminho.
Durante os poucos minutos que o capito Goring estivera entretido deliciando-se com a comida, tivera um dilogo com o duque que agora lhe parecia muito elucidativo.
- Esta sala  to linda! A cor das paredes forma um fundo perfeito para a pintura de colorido brilhante de alguns retratos.
- Sempre pensei isso. Tivemos o cuidado de manter em cada cmodo da casa os tons originais escolhidos pelo prprio Adams, cujo efeito no poderia ser melhor.
- A questo das cores  realmente importante. Quando estou na biblioteca, fico encantada com o efeito decorativo que a cor das encadernaes cria em relao a todo 
o ambiente.
O duque sorriu.
- Lembro-me de como meu pai ficou furioso alguns anos atrs quando recebeu aqui um velho amigo seu, um doutor da Universidade de Oxford, que em plena idade avanada 
resolveu dedicar-se  encadernao.
- Como hobby?
- S podia ser! Garanto-lhe que ningum lhe daria emprego, dado seu gosto duvidoso, como provam alguns de
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nossos livros, encadernados num berrante tom de laranja. Meu pai precisou se controlar muito para no jog-los na lata do lixo!
Ophelia rira. Harry ento contara o caso de algum que decorara toda a casa num tom de amarelo-limo, que fazia todo mundo parecer que estava doente.
A conversa no tivera maior significado para ela at ento.
Ocorria-lhe agora que, como o amigo do falecido duque era um acadmico ligado aos clssicos, no teria ele escolhido os livros que pessoalmente mais apreciava para 
exercitar sua nova habilidade?
No momento seguinte, o quarto estava iluminado e Ophelia vestia seu chambre.
Mais do que nunca seria impossvel dormir, sem certificar-se se sua concluso no era certa. Os livros raros, que muito procurava, provavelmente no estavam entre 
os que examinara  tarde, pois, devido  sua encadernao diferente, deviam ter sido colocados em prateleiras separadas, na biblioteca.
As palavras do duque, de que seu pai no tinha tanto interesse por literatura quanto seu av, pareciam corroborar a ideia.
Era como se dispusesse as peas num tabuleiro de xadrez: de um lado, um literato desejoso de exercer sua habilidade de encadernador nos mais valiosos volumes da 
coleo de Gore; de outro, seu anfitrio, interessado no no contedo de seus livros, mas em sua aparncia, confinando-os a algum canto obscuro da biblioteca, onde 
acabaram sendo esquecidos.
"Preciso confirmar se estou certa! "
Ophelia abotoou apressadamente os delicados botes de prola de seu chambre, simples, mas muito bonito, de crepe branco sedoso, entremeado de rendas valencianas 
e singelas fitinhas de veludo.
com os cabelos soltos, mais parecia um anjo cado do cu para a alegria dos pobres mortais.
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Porm, no estava nada preocupada com a prpria aparncia. Desejava to-somente localizar os livros encadernados de laranja e verificar se seu "sentido perceptivo" 
no a traa quando lhe dizia que o livro procurado talvez estivesse entre eles.
Ao abrir a porta do quarto, percebeu que dois pontos de luz iluminavam o corredor, o que facilitou seu acesso  escada.
No andar de baixo, o hall tambm se encontrava iluminado.
Foi ento que se lembrou do vigia, sentado numa poltrona de couro, bem ao lado da porta de entrada.
Sem hesitar, voltou ao andar superior e caminhou at o outro extremo do corredor, onde havia uma outra escada que dava bem perto da biblioteca.
No havia qualquer sinal de vigias por ali.
Ao descer, encaminhou-se rapidamente ao escritrio do sr. Hansard para primeiro apanhar a chave da biblioteca.
Quando fora devolv-la, pouco antes do jantar, notara que ele a guardara dentro de uma pequena caixa de prata trabalhada, que ficava sobre sua escrivaninha.
No imaginara ento que iria querer fazer uso dela e agora torcia para que continuasse ali.
O escritrio estava muito escuro, mas, com a porta aberta, entrava um pouco de luz vinda do corredor, refletindo-se justamente na caixa que procurava.
Ophelia abriu-a, tensa, e felizmente l estava a chave.
Rapidamente dirigiu-se  biblioteca, acendendo apenas algumas luzes, depois de entrar.
Pareceu-lhe tarefa quase impossvel descobrir, com a urgncia necessria, alguns volumes encadernados de laranja naquela vastido de livros.
A lgica lhe disse que, se o duque no havia gostado da encadernao e tinha procurado arquivar os livros fora do
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alcance da viso, eles deveriam estar em prateleiras altas, que s poderiam ser alcanadas pelo balco.
com o corao aos saltos, subiu a pequena escada em caracol que levava a ele, dirigindo-se ao extremo oposto  porta de entrada da biblioteca.
Desde que chegara a Gore, no tivera a oportunidade de subir ali e, num relance, percebeu que as prateleiras acima do balco continham ttulos de livros que realmente 
gostaria de ler.
com a cabea erguida e os olhos atentos, percorreu as vrias prateleiras, como se o instinto a guiasse.
Num sobressalto, ento, encontrou o que procurava!
Bem perto do teto, justamente onde terminava o balco e comeava uma grande janela, destacava-se um nmero de volumes encadernados em tom de laranja, destoando da 
tonalidade dos demais livros ao redor.
com dedos trmulos e cheia de ansiedade, tirou um exemplar. Alm do mau gosto da cor, a encadernao era realmente malfeita e amadorstica.
Prendendo a respirao, ela o abriu. Sua excitao era tanta que a pgina do livro parecia danar diante de seus olhos, impedindo-a de ler o que estava escrito.
Finalmente, deu-se conta de que tinha diante de si nada menos do que um antigo exemplar de uma bblia inglesa.
Procurando rapidamente a pgina de rosto, seu corao parecia querer saltar pela boca quando verificou tratar-se da verso de Genebra do Evangelho de So Mateus, 
publicado por Christopher Baker em 1576!
No restava dvidas de que se tratava de um exemplar autntico, que encantaria o mundo das letras e, certamente, renderia muito dinheiro ao duque, caso o vendesse.
Colocando-o debaixo do brao, Ophelia tirou outro livro da prateleira, ainda mais trmula de ansiedade.
Quase sem acreditar, eis que tinha diante dos olhos uma estampa de William Shakespeare, na pgina de rosto da primeira edio de suas peas, publicada em 1623!
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- Encontrei! Encontrei! - exclamou alto, sem se conter. Os rumores ento eram verdadeiros, e o tesouro que o duque tanto desejava estava ali em suas mos!
Olhava fascinada para a expresso de Shakespeare quando ouviu o rudo de passos aproximando-se da biblioteca.
Foi ento que lhe ocorreu que, embora tivesse fechado a porta, fora insensata por no t-la trancado  chave.
Rapidamente, morta de medo de quem pudesse estar ali, puxou um livro de uma prateleira baixa e enfiou primeiro o volume de Shakespeare, depois a bblia, agradecendo 
aos cus por conseguir encaix-los.
Ao acabar de ajeit-los, pressentiu a presena de algum dentro da biblioteca e no se tratava do duque. Instintivamente, sentiu-se em perigo.
Caminhou rapidamente pelo balco e estava no meio da escada em caracol quando Harry Goring, parado  porta, tomou conhecimento de sua presena ali.
Por um minuto, ele permaneceu imvel, depois, fechando a porta atrs de si, caminhou em direo  escada, alcanando-a no exato momento em que Ophelia descia o ltimo 
degrau.
- O que est fazendo aqui? - perguntou ela, antes que o rapaz dissesse qualquer coisa.
- J esperava encontr-la. Sabia que no desprezaria a pista que meu primo lhe deu durante o jantar.
- No sei do que est falando...
- A senhorita no sabe  mentir! Agora me diga o que encontrou.
- No encontrei... nada!
Apesar de Ophelia procurar aparentar naturalidade, sua voz soou trmula.
- Est mentindo! - insistiu Harry Goring, ameaador.
- Como seu scio,  justo que partilhemos de suas descobertas.
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- O senhor no  meu scio coisa nenhuma! - retrucou, exasperando-se. - E como no encontrei nada, pretendo voltar para a cama e continuar minhas buscas amanh.
Dito isso, tentou passar pelo capito, mas ele postou-se diante dela, impedindo-a.
- Acha que me convenceu? Imagino que no esteja h muito tempo aqui e, como est com tanta pressa de ir embora, s pode ser porque encontrou os livros encadernados 
de laranja que o duque mencionou.
- Creio que sua imaginao est trabalhando demais, capito Goring - disse, procurando dar uma inflexo de desprezo  voz.
- O que fez do original que encontrou?
- J que est decidido a no acreditar no que lhe digo, no h razo para eu continuar aqui. Boa noite, capito Goring!
Mais uma vez Harry Goring impediu-a de passar, desta vez sorrindo desagradavelmente.
- Acredita mesmo que pode me tapear desse jeito? Ofereci-lhe um presente, mas creio que prefir dinheiro. Muito bem. Que tal cinco por cento do que eu conseguir 
pelo original?
- Pensei que tivesse me dito que pretendia d-lo, caso o encontrasse, como presente de aniversrio a seu primo!
- Percebi claramente que no acreditou no que eu disse, por isso vamos deixar de encenaes - respondeu ele, cheio de cinismo. - Vamos, diga-me onde o colocou e, 
como lhe disse, dou-lhe parte dos lucros. No  o que quer?
- Se encontrar qualquer coisa de valor nesta biblioteca, vou entreg-la a seu legtimo dono!
Apesar de falar em tom de desafio, Ophelia assustou-se com a expresso enraivecida de Harry Goring. Nunca ele lhe parecera to alto e grande, fazendo-a sentir-se 
completamente indefesa.
Por uma questo de amor-prprio, porm, recusava-se a mostrar-se temerosa. Instintivamente, levantou o queixo e
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enfrentou o olhar enfurecido dele com os olhos falseando de raiva.
- Considero-o, capito Goring, completamente desprezvel! Se no permitir que eu saia daqui imediatamente, vou gritar e o vigia vir em meu socorro.
Levantando inesperadamente a mo, Harry Goring desferiu-lhe uma violenta bofetada no rosto, fazendo-a perder o equilbrio por um momento e soltar um grito abafado.
- Vai me dizer onde escondeu o livro, ou vou ter de espanc-la?
Ophelia estava recuperando o equilbrio quando ele lhe deu um outro tapa, atingindo-a desta vez do lado da cabea e fazendo-a cair ao cho.
Novamente ela soltou um pequeno grito, baixo demais para que pudesse ser ouvido fora da biblioteca.
A figura de Harry Goring projetava-se agora sobre ela mais ameaadora do que nunca.
-  melhor ceder. Ver que  muito menos doloroso! Ophelia compreendeu ento que ele estava realmente disposto a espanc-la para obter a informao que desejava.
Desesperada por achar insuportvel a dor que j sentia e receando ter que covardemente ceder, ela mal acreditou na prpria sorte ao ouvir a porta da biblioteca se 
abrir e uma voz gritar, irritada:
- Que diabo pensa estar fazendo?
Por um momento Harry Goring ficou paralisado pela surpresa. Sua mente gil, porm, logo encontrou uma sada para saf-lo daquela situao.
- Estou contente de que esteja aqui, Sandor! Encontrei esta mulher tentando roubar o original de Shakespeare que ela localizou e no sei onde escondeu.
- Bela explicao! - replicou o duque, sua voz soando feito uma chicotada. - Pois no acredito e no permito que uma hspede desta casa seja tratada dessa maneira. 
Para seu bem, Harry, saia daqui... j.
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Depois de uma pequena hesitao, Harry disse, com ares de ofendido:
- Se  assim que deseja... Mas previno-o de que no confie nela, nem d ouvidos s suas mentiras.
O duque no proferiu palavra alguma. Limitou-se a olhar para o primo. Harry, como se soubesse que estava derrotado, atravessou a sala e saiu, fechando a porta atrs 
de si.
Deixando passar alguns minutos, como para se assegurar de que o primo realmente no estava mais por ali, o duque ajoelhou-se e passou o brao pelas costas de Ophelia.
Chocada com o que acontecera e, ao mesmo tempo, aliviada por ter sido salva, ela soltou um gemido e escondeu o rosto nos ombros do duque.
Ele a abraou e, em seguida, ajudou-a a levantar-se, sem solt-la de seus braos.
- O que aconteceu? - perguntou, mudando em seguida de ideia. - No, no se preocupe em me explicar, j posso imaginar.
Ela estava, muito trmula e era evidente que no tinha condies de falar.
com toda delicadeza, Sandor colocou a mo em seu queixo, levantando-lhe o rosto, para contempl-lo.
Foi ento que notou a marca vermelha da mo de Harry e mostrou-se incrdulo.
As lgrimas comeavam a escorrer pelo rosto dela.
- Est tudo bem agora - disse-lhe o duque, baixinho.
- Ele no vai mais mago-la, fique sossegada.
Sem conseguir controlar o impulso mais forte do que sua vontade, inclinou a cabea e pousou, suavemente, seus lbios nos de Ophelia.
Por um momento, ela no conseguiu compreender o que estava acontecendo. Teve ento a viso de estar sendo retirada do inferno e transportada a um paraso desconhecido.
Ao sentir o contato dos lbios do duque nos seus, compreendeu que ansiava por aqueles beijos desde que chegara a Gore e que havia se apaixonado por ele assim que 
o vira.
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Todo seu ser respondera desde ento  menor aproximao dele, s suas palavras, aos seus olhares. Apenas por ser muito inexperiente no havia descoberto ainda que 
aquilo era amor.
Era o amor e mais nada a preocupava agora. Bastava usufruir da maravilha daquele sentimento e do prazer de estar nos braos de seu amado, que apertavam um pouco 
mais o seu corpo junto ao dele.
- Minha querida - disse ele, afastando um pouco os lbios dos dela -, no imagina como esperei por este momento!
Ele tornou a beij-la e mais uma vez afastou-a de si.
- Ah, querida, desde que a vi pela primeira vez, aqui mesmo, assim como est agora, pensei que era a jia mais linda que jamais havia visto em minha vida. Compreendi 
ento que acabava de encontrar o que sempre estivera procurando.
- Foi exatamente assim que me senti em relao a voc
- confessou Ophelia, com um fio de voz.
- Voc  minha, sabia? Nunca tive tanta certeza do que quero.
Os beijos do duque tornaram-se ento mais apaixonados e possessivos, provocando-lhe reaes que Ophelia jamais pensou conhecer. Era como se acabasse de descobrir 
que estava viva.
- Eu... o amo! - murmurou um pouco depois, sentindo o corao do duque bater to descompassadamente quanto o seu.
Sem responder, ele a tomou nos braos e carregou-a at o sof ao lado da lareira, onde o fogo ainda crepitava.
Sentou-se, aninhando-a nos braos, como se fosse um beb, pondo-se a roar suavemente os lbios por seu rosto ferido, por seus olhos, por seu nariz, at col-los 
sobre seus lbios.
- Eu a amo! - disse ele, com voz rouca. - Amo-a e nunca desejei ningum como a desejo.
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- Deve ser um sonho... isto no pode ser real!
- Por que no? O destino usou de suas malhas para nos enredar a seu modo e no h nada que possamos fazer.
- Se pudesse... teria... evitado?
- Tudo o que me importa na vida  voc.
Ento o duque voltou a beij-la, a beij-la cada vez com maior paixo, at que Ophelia sentiu uma chama intensa ardendo dentro de todo seu corpo e, assustada, procurou 
afast-lo.
- Eu a assustei, querida? Me perdoe, no tive essa inteno, mas no consegui controlar a paixo que sinto por voc.
- No... no, estou feliz. No sabia como era bom beijar!
- Nunca havia sido beijada antes? Ophelia sorriu e balanou a cabea.
- Ah, querida, com que ento tive a sorte de ser o primeiro em sua vida?  porque voc me pertence. - Ele fez uma pausa e prosseguiu: - Vivi muitos anos no Oriente 
para no acreditar que esta no  a primeira vez que nos encontramos, que eu vejo esse seu rosto lindo, esses seus olhos azul-violeta, que me enfeitiaram desde 
que, pela primeira vez, pousaram nos meus.
Era to estranha a sensao que Ophelia sentia que chegava a lhe faltar o ar.
- Eu... o amo, mas... agora acho que... talvez seja... melhor ir para a cama.
- Sim, claro.  difcil para mim deix-la ir.
Ele tirou os braos de volta de Ophelia e ela acomodou-se no sof.
- Continuamos a conversar amanh. Afinal temos toda uma vida pela frente.
Ophelia estremeceu ao pensar e encostou a cabea em seus ombros largos, num gesto de ternura. Ele a beijou na testa e levantou-se.
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- No quero cans-la, querida. vou acompanh-la at o corredor e providenciar para que meu primo saia desta casa bem cedo pela manh, para que no precise v-lo 
novamente.
Ele fez uma pequena pausa e, como se lhe tivesse subitamente ocorrido, perguntou:
- A propsito, voc encontrou alguma coisa? Estava mesmo escondendo algo dele?
- Estava escondendo para voc. Encontrei no s a edio original de Shakespeare, como tambm a bblia de Genebra, ambas de extremo valor.
- Ento as encontrou mesmo! Nossa, querida, isso torna tudo muito mais fcil!
Embora soubesse de antemo a resposta, Ophelia quis mais uma vez se assegurar:
- Quer dizer que... vai aplicar o dinheiro... em Gore?
- Quero dizer que posso me casar com voc sem que com isso me sinta um egosta.
Ele sorriu para ela e acrescentou, beijando-a de leve:
- De qualquer forma, era o que eu pretendia fazer quaisquer que fossem as consequncias, mas se realmente os volumes que encontrou forem to valiosos, como disse, 
as coisas ficam bem mais fceis.
- Valem muito dinheiro, e talvez haja outros livros de valor.
Ophelia teve a ntida impresso de que o duque no ouviu o que dizia. Olhava-a fixamente, deixando-a um pouco embaraada.
- Eu a amo e a quero! Quando podemos nos casar? Creio que devemos pedir consentimento a seu pai...
Foi ento que Ophelia deu-se conta de que tinha muitas explicaes para dar e no sabia ao certo como faz-lo.
Meio atrapalhada, apressou-se a responder:
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- Deixe-me lhe mostrar onde esto os livros. Creio que deve lev-los para seu quarto.
- Naturalmente!
Ele falou distrado, olhando fixamente para os lbios de Ophelia.
Ento, bruscamente, puxou-a para si e comeou a beij-la de maneira apaixonada, ardente, exigente, como se tivesse medo de perd-la.
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CAPTULO VI
Parados  porta da biblioteca, Ophelia e o duque deixaram-se ficar um longo tempo em muda contemplao. Nenhum dos dois parecia querer se afastar dali.
-  melhor que eu me v... - disse ela, relutante.
S ento deu-se conta de que, como vestia somente o chambre, seria melhor que o vigia no a visse.
Sem que ela fizesse qualquer comentrio, o duque compreendeu o que lhe passava pela cabea.
- Voc est linda, querida, mas prefiro que ningum a veja assim, a no ser eu - disse, sorrindo.
O tom apaixonado provocou-lhe um estranho friozinho na boca do estmago.
- Lamento deix-lo - murmurou.
-  por pouco tempo! Amanh vamos planejar quando poderemos nos casar e depois no precisar me deixar nunca mais.
Receando que o duque percebesse as sensaes que despertava nela, Ophelia tratou de despedir-se, sussurrando:
- Bem, ento j vou... Por favor, tome cuidado com os livros.
Sem se voltar para trs, cruzou o corredor e subiu rapidamente as escadas.
O duque ficou observando-a at desaparecer de vista, indo ento apagar as luzes da biblioteca e tranc-la  chave.
Ao chegar ao quarto, Ophelia atirou-se na cama do jeito que estava, deixando-se ficar por um longo tempo, usufruindo da maravilhosa sensao de estar sendo transportada 
para o cu atravs de um arco-ris.
De repente, ocorreu-lhe que precisava contar ao duque a
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verdade a seu respeito o mais breve possvel e ps-se a ponderar como o faria.
Finalmente, tirando o chambre e deitando-se direito, chegou  concluso de que a primeira coisa a fazer era voltar para casa e impedir o sr. Baron de chegar antes 
dela e do pai.
Antes de deitar, havia verificado a tabela com os horrios do trem para saber a que horas partiria da estao de Gore.
Como no estava preparada para dar todas as explicaes necessrias ao duque, seria melhor ir-se antes que ele acordasse.
No eram quatro horas da manh, quando tocou a sineta para chamar a camareira, que entrou afobada, depois de uma certa demora.
- Est doente, senhorita? - perguntou, quase sem flego, fazendo uma expresso de surpresa ao ver Ophelia meio vestida e arrumando alguns vestidos dentro de uma 
das malas.
- No estou doente, mas preciso partir imediatamente para Londres. Quero pegar o trem que sai s dez para as cinco.
Foi tanta a correria que, para sorte de Ophelia, no houve tempo algum para perguntas, ou para que a criada informasse a governanta ou o sr. Hansard sobre sua partida.
De qualquer forma, eles pouco se importariam que sasse mais cedo do que o esperado, uma vez que no era nenhuma convidada ilustre de Gore.
Pela carruagem que arrumaram para transport-la at a estao, tambm se podia notar que a criadagem no a tinha em alta conta.
No trem, a caminho de Londres, Ophelia pensou que era realmente muito sabida para algum que nunca havia feito qualquer coisa por conta prpria.
Seu pensamento mais uma vez voou para o duque e para os idlicos momentos que vivera com ele na noite anterior.
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A lembrana dele  que a encorajava a seguir em frente, mesmo tendo a plena convico de que teria muitas dificuldades a enfrentar.
Quando o trem chegou em Paddington, Ophelia solicitou a um carregador que apanhasse suas malas no bagageiro do trem e lhe procurasse uma carruagem de aluguel, para 
lev-la  pequena casa de sua bab, onde Martha estava hospedada.
As duas senhoras acabavam de tomar o caf da manh, quando ela apareceu.
- Srta. Ophelia! - exclamou Martha, muito surpresa de v-la. - O que faz aqui a esta hora da manh? E numa carruagem alugada, por Deus!
- vou lhe explicar tudo no caminho de casa. Por enquanto, deixe-me cumprimentar a bab e dizer a ela como  bom v-la.
Inclinou-se para beijar a velha ama, que vibrou de alegria ao v-la, no se cansando de repetir que estava muito bonita.
Ophelia aceitou uma xcara de ch, enquanto Martha, subindo rapidamente as escadas estreitas, foi recolher seus pertences. No houve assim oportunidade de explicar-lhe 
a razo de sua chegada to intempestiva, nem da de no ter sido levada por uma carruagem dos Grayson.
No trajeto para casa, porm, Martha insistiu em saber.
- Conto com sua ajuda, Martha - disse Ophelia, persuasiva. - S voc pode me auxiliar.
- Como bem sabe, no vou fazer nada que seu pai possa reprovar - retrucou Martha. - O que a senhorita quer?
- Primeiro, quero que me prometa que no vai contar ao papai que estive em Londres. Mas, caso ele fique sabendo pelo sr. Allen, o que  muito provvel, ento por 
favor no diga que ficou hospedada na casa da bab.
- Ora, o que est acontecendo? A verdade  que no gosto nada do que est me pedindo. Bem que achei estranho quando me disse que eu no podia ficar na casa de Sua 
Alteza.
- Por favor, Martha, no me faa tantas perguntas. 101
Sinto-me cansada e preocupada e, para ser sincera, estou com uma terrvel dor de cabea.
Fechou os olhos, sabendo que a velha criada, que gostava muito dela, ficaria preocupada e por algum tempo no insistiria no assunto.
Novamente no ambiente seguro de sua casa, Ophelia tinha a impresso de ter acordado de um sonho.
Teria realmente estado em Gore naquelas estranhas circunstncias? Teria realmente sido to boa atriz a ponto de o duque acreditar que ela era filha de um bibliotecrio?
Quem diria; o amor que haviam descoberto um pelo outro era to forte e to arrebatador que ele no hesitara em pedi-la em casamento.
Se tivesse lido histria semelhante num livro, jamais acreditaria.
De todos os homens, os duques eram os aparentemente menos propensos a se casarem por amor.
Seu pai sempre comentava que, para a aristocracia, o casamento no passava de um negcio, do qual ambas as partes procuravam lucrar o mximo possvel.
O seu duque, entretanto, era diferente.
Qualquer outro homem de sua importncia teria sugerido uma posio bem diferente para uma moa de sua suposta condio, mas ele lhe propusera casamento.
"Eu o amo! Eu o amo!", Ophelia repetiu a si mesma mil vezes. "No poderia existir algum mais maravilhoso. "
Era uma felicidade inexplicvel ter, como a me, encontrado algum por quem tivesse se apaixonado  primeira vista e que a amava por si mesma, e no pelo seu dinheiro.
O pai estava enganado. Amor  primeira vista acontecia no apenas uma vez em um milho de casos, mas duas!
Ophelia podia sentir a presena da me a seu lado e sabia que ela entendia perfeitamente o enlevo que a filha estava vivendo.
Circulando de um lado para outro pela casa, sem 102
conseguir se concentrar no que quer que fosse, ela no tirava o duque da cabea, estremecendo ao se lembrar da fora de seus abraos e da emoo de seus beijos.
Era importante, porm, voltar  terra e comear a resolver algumas questes de ordem prtica.
Procurou pelo sr. Baron e, depois de muita conversa, conseguiu persuadi-lo a ir para Gore somente na segunda-feira posterior  caada.
- A senhorita me deixa apreensivo com a recepo que terei ao chegar l - confessou ele, de cenho franzido.
- No h com que se preocupar, sr. Baron. Assim que chegar, terei dado todas as explicaes necessrias e, quando conhecer a biblioteca, no pensar em outra coisa.
Ophelia ento contou-lhe como descobrira as duas valiosas edies, de Shakespeare e da bblia, deixando-o pasmo.
- Tem certeza de que so autnticas, srta. Ashurst?
- Absoluta!
Ao saber que as obras haviam sido reencadernadas por um professor de Oxford, o sr. Baron reconheceu que ele dificilmente se daria ao trabalho de encadernar falsificaes.
- Acredita que o duque conseguir um bom preo por elas quando as vender?
- Vend-las! - exclamou o bibliotecrio, horrorizado.
- No posso acreditar que Sua Alteza pretenda despojar a
- biblioteca de Gore do que provavelmente sejam seus mais raros e preciosos tesouros!
Ophelia ficou embaraada.
Falara sem pensar e caa em si que no devia revelar assuntos particulares do duque nem mesmo para o sr. Baron.
- Por favor, no comente nada do que lhe disse com Sua Alteza - pediu, sentindo-se pouco  vontade. - Ele  extremamente correto e est ansioso para liquidar algumas 
dvidas contradas pelo falecido duque, bem como fazer os reparos necessrios na propriedade.
- Seria um crime, um verdadeiro crime! - protestou o sr. Baron, indignado.
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Ophelia no sabia mais o que dizer, mas conseguiu fazlo prometer que no comentaria com ningum sobre o que havia lhe contado.
Vendo a reao do sr. Baron, perguntou-se se algum mais tentaria dissuadir o duque de vender os livros.
Ocorreu-lhe ento que, se a venda realmente se efetivasse, no seria difcil para os curadores do pai comprarem, com a aquiescncia dele, os livros de volta para 
ela.
Era incrvel que desde que conhecera o duque compreendera, da mesma forma que o pai, ser ele o ltimo homem na face da Terra a merecer o rtulo de caa-dotes.
Assaltou-a subitamente o receio quanto  reao que o duque teria ao saber que ela era extremamente rica e no a filha de um modesto bibliotecrio.
Como se tivessem lhe jogado um balde de gua fria, vieram-lhe  memria as palavras do pai que jamais um "ingls decente" a desposaria.
Uma opresso invadiu-lhe o peito ao pensar que, possuidor agora de uma quantia em dinheiro capaz de cobrir suas despesas imediatas, talvez o duque se recusasse a 
casar com ela por ser rica.
A ideia a princpio um tanto nebulosa foi ganhando corpo e tornou-se cada vez mais ameaadora  sua futura felicidade.
"Tudo vai dar certo", garantiu a si mesma incontadas vezes.
Mais uma vez as palavras do pai, que tanto amava, soaram como chicotadas a atormentar sua lembrana, repetindo sem cessar que no teria se casado com sua me caso 
tivesse um conhecimento prvio da fortuna dela.
Sempre achara que era exagero dele, pois os dois amavam-se muito. Agora, porm, recordava-se do cuidado que ela sempre tivera de no mencionar ou sequer sugerir 
que seu dinheiro ajudava a mant-los.
Agitada por tantos pensamentos, Ophelia no conseguia parar num lugar, movimentando-se de um lado para outro pela casa.
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Naquela noite foi impossvel dormir, mas, pouco antes de o coronel Ashurst chegar, havia tomado uma deciso.
Como o duque e ela estavam apaixonados, contaria a verdade ao pai.
Certamente, ele ficaria muito zangado com o seu comportamento ousado, mas estava segura de poder convenc-lo de que os fins justificavam os meios.
Afinal, conhecendo o pai como conhecia, sabia que no ntimo ele temia que se recusasse a ir a Gore ou, pior ainda, criasse dificuldades para que o duque a pedisse 
em casamento.
Embora soubesse que ele era do tipo que no hesitaria em for-la a fazer o que queria, o fato de no s desejar, mas estar decidida a casar-se com o duque, tornava 
tudo menos complicado.
"O amor  mais importante do que qualquer outra coisa", pensou, buscando consolo, pois sabia que esse era o ponto de vista do duque.
A dvida, entretanto, ainda persistia quando o coronel Ashurst desceu da carruagem e to estampada estava em seu rosto que, depois de beij-la carinhosamente, ele 
lhe perguntou:
- Voc me parece preocupada, filha. O que h?
- Nada... papai. Estava apenas com saudades suas.
A sorte estava lanada. Uma vez que mentira, teria de continuar a fingir que no acontecera coisa alguma durante a ausncia dele e deixar as explicaes para quando 
chegassem a Gore.
Felizmente, o pensamento do coronel estava todo voltado para a prxima visita e ele no queria falar em outra coisa a no ser no que se referisse a ela.
- Duvido que qualquer outro homem no mundo fosse capaz de conseguir, em to pouco tempo, uma variedade de trajes mais lindos - gabou-se ele.
Ophelia sorriu, indiferente.
- Estive tambm pensando, filha, que talvez voc 105
gostasse de usar algumas das jias que pertenceram  sua me. Por isso tirei do cofre do banco um colar de brilhantes, que vai ficar lindo nesse seu pescocinho alvo, 
e um conjunto de brincos, colar e pulseira de turquesa, que no poderia ser mais perfeito para uma jovem da sua idade.
A meno da palavra "turquesa" fez com que Ophelia imediatamente se lembrasse de Harry Goring e da maneira como tentara suborn-la, comprometendo em muito a beleza 
daquelas pedras para ela. Da, instintivamente, aflorar-lhe aos lbios a resposta:
- Creio que seria um erro de minha parte usar jias que outras jovens da minha idade certamente no possuem. No quero que o duque ou seus convidados pensem que 
estou desfilando minha riqueza.
Por sorte o coronel no percebeu como a voz de Ophelia tornara-se trmula quando mencionara o duque.
- Talvez tenha razo. Como sua me, voc  sensvel aos sentimentos dos outros. Use ento suas prolas, como de costume, mas vamos levar as jias s para o caso 
de vir a precisar delas, est bem?
- Claro que sim, papai.
Para agrad-lo, foi ver as roupas que ele lhe havia comprado.
Os chapus eram qualquer coisa de sofisticado: o da viagem era enfeitado com penas de avestruz; o que usaria no dia da caada era de feltro, num estilo arrojado, 
a ltima moda em Paris.
- Como imaginava - comentou Martha, querendo colocar defeito -, seu pai no lembrou mesmo de vrios acessrios. Que bom, no , srta. Ophelia, que lhe comprei alguns 
pares de luvas, chinelos novos, alm daquelas lindas botas para caar.
- Eu no tinha dvida de que voc se lembraria de tudo, Martha - disse Ophelia, sorrindo. - Mas, por favor, tome cuidado de no mencionar na frente de papai que 
esteve em
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Londres. Ele ficaria aborrecido se percebesse que esqueceu de coisas realmente fundamentais.
Na manh seguinte, Ophelia e o pai seguiram muito cedo rumo a Paddington, onde, para perplexidade de Ophelia, os aguardava um luxuoso trem privativo do duque.
Ela no sabia que o quarto duque de Gorleston, a exemplo de vrios outros nobres, adotara o estilo de Sua Alteza Real conduzir seus convidados a Sandringham.
Lacaios trajando o uniforme de Gore foram recepcionlos, enquanto outros cuidavam de sua bagagem, por sinal muito volumosa.
Ela ficara sabendo que, quando o prncipe estava presente, nenhuma dama podia ser vista usando a mesma roupa mais do que uma vez. Assim, mesmo para uma visita de 
dois ou trs dias, o volume da bagagem era fantstico.
Convidados muito elegantes chegavam ao trem e o pai parecia conhecer a todos.
- No precisa nem dizer por que est aqui, Ashurst comentou um cavalheiro. - H uma verso nada agradvel circulando de que o novo duque pretende se desfazer dos 
cavalos do pai. Est a uma coisa que voc deve tentar impedir a qualquer custo!
O coronel Ashurst esboou um sorriso enigmtico, enquanto seu amigo insistia:
- Espero que no passe de um boato. No podemos perder tradicionais e respeitados proprietrios para banqueiros intransigentes que agora resolveram aderir ao Esporte 
dos Reis.
A insinuao era clara, e vrias pessoas que estavam por perto riram.
- Tenho certeza de que o coronel Ashurst, que conhece cavalos como ningum neste pas, vai mostrar ao duque quais so suas responsabilidades - aparteou uma linda 
dama. Uma delas  levar avante a tradio Goring, no , coronel?
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O pai limitou-se a sorrir novamente e tratou de apresentar a filha aos presentes.
Depois que todos haviam tomado seus assentos no trem, algum perguntou:
- Qual a razo da demora em partirmos?
Uma empregada de bordo, que servia champanhe a todos, explicou:
- Estamos esperando por Sua Alteza Real, milady.
- Ele vai conosco?
- No mesmo trem, milady. Sua Alteza Real tem um vago particular.
Um cavalheiro riu.
- Sabia que ele no perderia a primeira caada da temporada em Gore.
- Quem gostaria, considerando-se a quantidade de espcies que caamos no ano passado?
A conversao geral ento girou em torno da caada do ano anterior e do enorme nmero de faises abatidos.
Ophelia que no s era grande apreciadora daquele esporte, como tambm interessava-se pelos resultados das caadas que o pai frequentava, sabia que haviam sido abatidas 
mais de duas mil aves, em um nico dia.
- Espero sinceramente que Gorleston no esteja pensando em economizar na caa! O prncipe sempre diz que prefere caar em Gore do que em qualquer outro lugar que 
conhece.
- Talvez seja uma questo de escolha entre os cavalos e os faises - sugeriu um senhor idoso.
- Deus do cu! Est insinuando que vai ter de optar entre um e outro?
- Aparentemente o falecido duque deixou uma pilha de dvidas.
Houve um breve silncio. Ento uma das senhoras exclamou:
- No posso nem pensar que talvez no desfrutemos
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mais de nossas adorveis visitas a Gore! Sempre nos divertimos tanto l. O Charlie sempre diz que se a moblia est gasta a adega no est!
Todos riam muito quando um senhor, sentado no extremo oposto do trem, observou:
- Bem, o novo duque  jovem e saudvel e, pelo que diz minha esposa, muito bonito. Tudo que precisa  de uma esposa com dinheiro, e isso ele certamente no ter 
dificuldade em encontrar.
Fez-se um pesado silncio.
Ophelia teve a sensao de que todos ali, conhecedores de sua fortuna, entendiam a razo de ela ter sido includa entre os convidados.
Seu embarao no poderia ser maior. Tinha vontade de fugir dali e refugiar-se num esconderijo qualquer; tinha vontade de levantar-se e gritar em alto e bom som:
"O duque no vai se casar comigo por causa do meu dinheiro! "
com um n na garganta, via transformar-se, como pelo toque de uma varinha de condo, um sentimento mgico, repleto de pureza e nobreza, em uma mesquinha transao 
financeira.
O silncio que se seguiu ao comentrio parecia interminvel. A gafe fora desagradvel.
Todos ento puseram-se a falar a um s tempo.
Desviando os olhos para a janela, Ophelia viu, providencialmente, aproximar-se o prncipe de Gales, com sua comitiva, o que distraiu a ateno geral.
Assim que ocuparam o vago reservado para Sua Alteza Real, o trem partiu.
Ao chegarem, um tapete vermelho foi esticado na plataforma da estao de Gore.
O prncipe foi o primeiro a desembarcar, sendo conduzido para a casa do duque numa majestosa carruagem puxada por quatro cavalos.
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A Ophelia parecia inacreditvel que houvesse sado dali apenas na manh anterior, quando ainda estava escuro.
Pouco depois, ao avistar a propriedade ao longe, achou-a mais magnfica e imponente do que nunca.
Assaltou-a uma sensao de irrealidade e sentiu-se como a prpria Alice no Pas das Maravilhas, tornando-se cada vez menor.
O pai a olhava com os olhos brilhantes que lhe iluminavam todo o rosto.
Se ele pudesse imaginar!
A emoo que sentia provavelmente devia estar transparecendo. No se intimidava diante de Gore, nem de seus convidados ilustres, mas no continha a ansiedade de 
rever o duque.
Lamentava agora no ter contado tudo ao pai. Seu corao batia descompassado ao pensar em como iria enfrentar aquela situao constrangedora.
"Ele me ama e eu o amo. Tudo s pode dar certo", dizia a si mesma, tentando se tranquilizar.
Confortava-a tambm a certeza de que nunca estivera to bonita e elegante, no vestido novo que lhe realava a figura esbelta, coberto por uma linda capa forrada 
de pele, cuja aparncia fina e cara no encontrava rival entre as das demais damas presentes.
Ainda assim, quando os cavalos cruzaram os portes de entrada, um pnico invadiu-a. O que diria se, quando chegassem, o duque exclamasse:
- Srta. Baron... no esperava v-la aqui!
Ophelia havia deixado um bilhete sobre a mesinha-decabeceira, para ser levado s mos dele na hora do desjejum, no qual dizia que se ausentaria por pouco tempo:
"Preciso ir e explico-lhe a razo quando nos encontrarmos novamente, o que ser muito em breve. Perdoe-me por no ter-lhe dito nada a noite passada, mas estarei 
com voc outra vez o mais rpido possvel. Eu o amo".
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Ao assinar o bilhete, jurara a si mesma que no futuro nunca mais mentiria a ele. S esperava que ele compreendesse suas razes para ter ido a Gore, fazendo-se passar 
por outra pessoa.
Estava convicta de que jamais teriam sentido a mesma coisa um pelo outro, se ela no tivesse tido a coragem de se comportar daquele modo que o pai, sem dvida, consideraria 
atrevido e altamente repreensvel.
"O duque vai entender... Sim, ele vai entender que eu estava  procura da verdade porque desejava amor, o amor verdadeiro que felizmente encontrei. "
Ainda assim, ao subir os degraus de entrada e penetrar no amplo hall de mrmore, Ophelia no conseguia controlar seus temores.
Apesar de o pai ter lhe dito que o duque os recepcionaria  chegada, antes de se dirigirem a seus quartos, no havia sinal dele e o sr. Hansard aproximou-se, dizendo:
- Sua Alteza pede que o desculpem por no vir receblos como desejava, mas Sua Alteza Real quis ter uma conversa particular com ele.
- Naturalmente... claro... - murmuraram as damas presentes.
Todos ento foram acompanhados a seus aposentos no andar superior.
Ophelia foi instalada num quarto maior e bem mais luxuoso do que o que ocupara no segundo andar.
Uma outra camareira foi ajudar Martha a desfazer as malas e, com alvio, ela viu que o temido momento de confronto havia passado, pelo menos por mais uma ou duas 
horas.
Depois de descansar, banhar-se e vestir uma roupa nova, o pai, que estava ocupando o quarto ao lado do seu, foi busc-la para descerem para o jantar.
- O que est usando? - perguntou o coronel ao entrar no quarto. - Como sempre lhe digo, Ophelia, a primeira impresso  muito importante.
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Ophelia sorriu, lembrando-se do momento em que, pela primeira vez, vira o duque, quando ambos se apaixonaram.
- Coloquei o vestido mais bonito de todos, papai.
O vestido era realmente lindo, com uma ampla saia de tule, salpicada de pequenos brilhantes, da cintura  bainha. Brilhantes em forma de lgrimas enfeitavam os ombros 
e as pequenas mangas bufantes.
Embora branco, era muito diferente dos vestidos usados pelas debutantes, sendo de uma sofisticao e classe que s mesmo muito dinheiro poderia pagar.
com prazer, o coronel Ashurst notou que a filha usava a gargantilha de brilhantes, mal sabendo que, para ela, a jia tinha o significado quase que de uma arma para 
se defender.
- Est pronta? No podemos nos atrasar na primeira noite, que normalmente  cheia de formalidades. Todos temos que estar l embaixo antes do prncipe de Gales.
- A princesa Alexandra est com ele?
- No. A sra. Keppel  quem est, o que significa que estar de bom humor - replicou o pai, sorrindo e acrescentando: - E  para estar mesmo. A maioria dos amigos 
ntimos de Sua Alteza Real est presente e, como so os melhores caadores do pas, imagino que o duque no poupar esforos para fazer deste evento um grande acontecimento.
Ophelia no teceu comentrio algum, mas pensou que o duque talvez considerasse o evento como seu "canto de cisne".
Pelo que havia calculado, com o dinheiro proveniente da venda dos livros, ele poderia cobrir as despesas para os reparos mais urgentes da casa e pagar as penses 
atrasadas, da certamente estar planejando cortar os gastos com corridas e caadas, em que o pai anualmente despendia milhares de libras.
"Em poucos minutos, ele vai ficar sabendo que pode ter tudo o que deseja e mais... amor! "
Ophelia estremeceu ao pensar nisso e lamentou no ter
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tido coragem suficiente para ir procur-lo, depois que chegaram.
Apaziguou a conscincia, alegando a si mesma que de nada teria adiantado uma vez que ele estava com o prncipe e, provavelmente, no a teria recebido.
Ao descer as escadas principais, atormentava-a a sensao de estar caminhando para um desastre iminente.
E se, surpreso com sua apario, o duque a acusasse de engan-lo na frente do pai e dos demais convidados?
Como reagiria caso Sandor a denunciasse como impostora, contando a todos que se infiltrara naquela casa sob falsa identidade?
Ela sabia perfeitamente que o duque no faria nada daquilo, entretanto, a perspectiva a apavorava.
Havia duas pessoas na frente do coronel Ashurst e de Ophelia e agora era a vez deles pararem  larga porta-dupla, ao lado da qual estavam postados dois lacaios uniformizados, 
usando perucas brancas, bem como um arauto que anunciava os convidados  medida que iam entrando no salo:
- O marqus e a marquesa de Ripon, Vossa Alteza!
O duque cumprimentava o marqus e sua linda esposa.
Fez-se uma pequena pausa antes que fossem anunciados os nomes do pai e o dela.
Contemplando o duque a distncia, Ophelia tinha a sensao de que seu corao ia estourar no peito.
Se havia achado o duque esplndido ao jantar com ela e Harry Goring, envergando agora todas as suas condecoraes devido  presena do prncipe de Gales, a aparncia 
dele no poderia ser mais fantstica. Entretanto, ele lhe parecia algum diferente, extremamente importante e inacessvel.
Subitamente tomada de pnico, a nica coisa que lhe importava na vida parecia escapar-lhe das mos, antes mesmo de t-la conseguido.
Aquele no era o homem que a tivera nos braos.
Aquele no era o homem que, com seus beijos, a transportara s nuvens.
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Aquele no era o homem que lhe dissera pertencer a ele e no poder viver sem ela.
- coronel e a srta. Ashurst!
Aproximavam-se agora cada vez mais do duque, e a figura dele danava diante dos olhos de Ophelia, quase sufocada pela emoo.
- Como vai, coronel?  um prazer receb-lo em Gore. Espero que tenhamos uma bela caada amanh.
- No tenho dvidas de que teremos. No  para isso que estamos aqui?
- Pois conto muito com todos, que entendem muito mais do assunto que eu, que no participo de caadas h tantos anos.
- Logo recuperar a forma - retorquiu o coronel, sorrindo.
Dando-se conta ento da presena de Ophelia, apresentou-a:
- Permita-me, Alteza, apresentar-lhe minha filha. Esta  a primeira grande recepo a que comparece. Tenho certeza de que ser inesquecvel.
Sentindo-se como uma marionete manipulada pelo pai, Ophelia estendeu a mo e fez uma pequena mesura.
- Fico encantado de que sua primeira recepo seja em Gore e espero no decepcion-la.
Enquanto o duque falava, Ophelia levantou, temerosa, os olhos para ele, qual nufraga a levantar a mo cheia de esperana para ser salva de um mar de angstia.
Ento, espantosamente... inacreditavelmente... no viu a mnima centelha de reconhecimento no olhar que ele lhe dirigiu.
Preparada que estava para vrios tipos de reaes: alegria, prazer, surpresa, espanto, indignao, revolta, Ophelia podia esperar tudo, menos a... indiferena.
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CAPITULO VII
"Eu o perdi!", disse Ophelia a si mesma. "Eu o perdi! "
Vendo o duque conversar e rir com os amigos, no dirigindo sequer um olhar em sua direo desde que chegara, ela parecia estar vivendo um pesadelo, sem saber como 
agir ou o que dizer.
No podia ser maior sua perplexidade quando, ao entrar no salo, ele parecera no reconhec-la. Mas era impossvel que isso acontecesse depois de tudo o que havia 
lhe dito.
Quando o pai a conduziu ao outro extremo do salo, onde se encontrava um grupo de amigos que desejava cumprimentar, ela viu que lady Grayson estava entre eles.
- Que bom v-la, Ophelia! Falei muito com nosso anfitrio a seu respeito. Disse-lhe, inclusive, que a conheo desde que nasceu.
-  bom v-la tambm, lady Grayson - retrucou Ophelia, sentindo um aperto no corao.
Durante toda a noite, o duque ignorou sua presena e no fez. a menor tentativa de se aproximar, evitando at lhe dar boa-noite.
No escuro de seus aposentos, ela chorou copiosamente sobre o travesseiro o desmoronamento de todos os seus sonhos.
O duque no tinha mais necessidade de se casar por dinheiro. Assim, ela no era mais do interesse dele nem como a mulher que amara, nem como herdeira rica.
Apesar de sua profunda desiluso, Ophelia desceu para o caf, na manh seguinte, na esperana de que o novo dia trouxesse alguma alegria a seu corao e que pelo 
menos o duque lhe pedisse explicaes sobre sua ida a Gore sob aquele pretexto falso.
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O duque, contudo, no se encontrava na sala de refeies, embora todos os demais estivessem presentes, incluindo vrias senhoras que desejavam assistir  caada.
O dia no poderia ser mais perfeito, com cu claro e um pequeno toque de gelo aqui e ali, fazendo a natureza cintilar.
No que dizia respeito a Ophelia, porm, o cu parecia lhe reservar densas nuvens de incertezas e preocupaes.
Via agora o duque de uma outra perspectiva: a do anfitrio perfeito.
Seus empregados, sem dvida, haviam sido instrudos para organizar a caada como no passado, mas ele fazia alteraes, melhorando a posio das armas, especialmente 
a do prncipe.
Era notrio que Sua Alteza Real estava divertindo-se.
Na noite anterior, durante o jantar, Ophelia observara-o rindo muito, em companhia de duas damas atraentes, que o ladeavam  mesa. No demonstrava ento o menor 
sinal de aborrecimento, com o seu famoso tamborilar de dedos na mesa.
Depois do sucesso da parte da manh e de um excelente almoo, Sua Alteza Real aguardava ansioso as trs prximas incurses.
Nas duas primeiras, havia uma quantidade de aves para satisfazer todas as armas, mas a ltima, segundo o que o coronel comentou com Ophelia, seria um teste mesmo 
para os mais experientes atiradores.
Antes do dia comear, todos haviam escolhido suas posies, com exceo do prncipe, a quem foi dada a melhor delas.
Era curto o caminho at o bosque e o coronel Ashurst optara por um de seus cantos.
Para chegar at ali, Ophelia e ele tiveram de atravessar uma trilha entre as rvores, no centro das quais ela notou uma plataforma.
- Aquela  a posio de nosso anfitrio - informou-a
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o coronel. - As aves voam to alto neste ponto que, quando a incurso terminar, veremos se ele  to bom atirador quanto seu pai.
Continuaram caminhando at encontrar o basto que marcava sua posio.
Seu ajudante j havia carregado sua primeira arma, passando-a a ele, e carregava a segunda.
Apareceu uma ave, mas, embora tivesse levantado a arma, estava fora de sua mira e ele no atirou.
Ento o ajudante disse:
- Perdoe-me, senhor, creio que estamos com pouca munio. S agora notei.
O coronel ficou irritado.
- Foi falta de ateno sua! J estive nesta posio antes e espero atirar muito.
- Sinto muito, senhor. Posso pedir a Sua Alteza que nos ceda alguns cartuchos?
O coronel hesitou um pouco, depois disse:
- Ophelia, v procurar o duque e explique a ele o que aconteceu. No gostaria de ser pego desprevenido quando as aves comearem a aparecer.
- Est bem, papai.
Ophelia retomou o caminho que fizera antes e foi encontrar com o duque em sua posio, de costas para as rvores, com uma arma na mo e o ajudante atrs.
Ele no a viu aproximar-se, mas, ao pressentir sua presena, virou-se para olh-la, desvirando-se imediatamente.
Por alguns minutos, a voz de Ophelia simplesmente no conseguia sair. Depois, ofegante, ela mal conseguia articular as palavras:
- Meu pai pediu... Se podia fazer... a gentileza de lhe ceder alguns cartuchos. Ele teme... ficar... sem munio.
- Naturalmente que cedo - respondeu o duque friamente.
117.
Ele voltou-se para o ajudante:
- Leve para o coronel Ashurst meu cartucho extra Barton.
O rapaz apoiou a segunda arma do duque contra uma rvore, pegou um cartucho de balas e saiu apressadamente dali.
Ophelia no se moveu. Aquele era o momento que esperava para falar a ss com o duque, embora no soubesse por onde comear.
Ele no mais a encarava, fixando a ateno num ponto entre as rvores  sua frente.
- Por favor... queria lhe dizer...
Um faiso voando alto apareceu sobre as rvores. Ele apontou a arma e atirou.
Como voasse muito rpido, Ophelia teve a impresso de que o pssaro no havia sido atingido, mas, pouco depois ouviu um barulho, voltou-se e verificou a ave cada 
no bosque.
Nesse momento, para seu espanto, ela viu, um pouco mais atrs, o cano de uma espingarda projetando-se dentre os arbustos espessos.
Ela achou aquilo estranho.
Foi ento que, enquanto o duque a seu lado levantava a arma para uma outra ave ainda mais alta do que a primeira, Ophelia se deu conta de que a arma escondida entre 
os arbustos estava apontada para ele!
Sem pensar no que deveria fazer, atirou-se contra o duque e, como ele estivesse meio inclinado, perdeu o equilbrio e quase caiu ao cho.
Seguiu-se uma exploso que quase estourou seus tmpanos. Balas passavam sobre sua cabea. Uma sbita dor no pescoo a fez gritar.
-  uma mulher de sorte! - disse o mdico ao aplicar unguento no pescoo de Ophelia. - Sua criada me disse que seu chapu ficou todo perfurado.
- E meu pescoo est doendo bastante - queixou-se ela, aborrecida.
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- Acredito. S no entendo a razo de algum usar calibre to grosso para caar faises.
Ele olhou para o ferimento feito pela bala que passara de raspo pelo seu pescoo, dizendo num tom de voz preocupado:
- Se o cartucho todo atingisse a cabea de um homem, as consequncias poderiam ser fatais.
- Quer dizer... que poderia matar um homem?
- Um ferimento na cabea  sempre perigoso. No mnimo, afetaria o crebro.
Ophelia susteve a respirao.
Sabia agora quem havia acionado a arma que vira entre os arbustos e de quem salvara o duque.
-  a primeira vez que acontece um acidente desse tipo em Gore. Foi muito azar que tivesse de acontecer bem na primeira caada organizada por Sua Alteza, mas felizmente 
o estrago no foi grande.
Ele sorriu para Ophelia, como que se desculpando por minimizar a dor que ela estava sentindo e continuou:
- A senhorita estava bem protegida pelo chapu e pela capa, o que impediu um ferimento mais grave. Acidentes com armas de fogo so invariavelmente fatais.
Pelas palavras do mdico, Ophelia compreendeu a explicao que o duque dera a todos sobre o ocorrido.
Quando ele a levara nos braos em busca de socorro, ela estava muito chocada para falar.
Sentira, entretanto, um conforto inexplicvel de estar junto dele e, principalmente, de sab-lo salvo.
Salvo, pensava agora, de seu maldito e diablico primo que, no tendo conseguido roub-lo, estava pronto para mat-lo.
- Procure descansar - dizia-lhe o mdico. - Se quer um conselho, srta. Ashurst, perca o baile que haver hoje  noite. Jante sossegada na ante-sala ou, melhor ainda, 
na prpria cama.
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com um olhar bondoso, acrescentou:
- Sei que  difcil em sua idade deixar de ser a "bela do baile", mas continuar sentindo dores no pescoo nas prximas vinte e quatro horas.
Ele pegou sua maleta e encaminhou-se  porta, fazendo uma recomendao final:
- Se no quiser seguir meu conselho, como imagino, procure ento descansar amanh. Venho visit-la pela manh para me certificar de que no h qualquer-inflamao.
- Obrigada - agradeceu Ophelia, enternecida.
Ela ainda ouviu a voz dele dando instrues a Martha, no corredor.
Ophelia recostou-se melhor nas almofadas da chaiselongue.
No tinha a menor vontade de danar. Queria to-somente ver o duque, conversar com ele, faz-lo compreender a situao e deixar de ficar zangado com ela.
Certa de que o mdico repetiria para ele o que havia lhe dito, sem dvida ele compreenderia que, se no estivesse a seu lado, Harry Goring poderia t-lo matado.
Que maneira mais esperta de acabar com a vida do primo, durante uma caada, sabendo que seria difcil identificar de quem partira o tiro assassino!
Alm do mais, dada a presena do prncipe de Gales, seria feito todo o possvel para se abafar logo o caso do dito "acidente", evitando afetar sua imagem pblica.
"O capito Goring foi mesmo muito esperto", pensou Ophelia. "O pior  que, como falhou, certamente vai tentar outra vez. "
No podia haver agonia maior do que a de saber que seu amado ainda corria riscos e que, da prxima vez, talvez no estivesse por perto para salv-lo.
Martha entrou no quarto, interrompendo suas divagaes.
- Nunca vi uma coisa dessas em minha vida! - exclamou em tom reprovador. - Pelo que o mdico me disse, a senhorita poderia ter sido morta. O que faramos ento?
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- No haveria coisa alguma a fazer.
- Sempre odiei armas e tudo o que se relacione a elas
- observou Martha, contrariada. - Agora vou coloc-la na cama e no sair de l at amanh cedo.
- Nada disso, quero ficar onde estou. Sinto-me bem agora, e meu pescoo s di um pouquinho.
- Foi ferida, e a cama  o melhor lugar.
Ao ver que a jovem no tinha a menor inteno de obedecer-lhe, endireitou a colcha que tinha sobre os joelhos e foi lhe fazer um "gostoso chazinho".
-  do que est precisando para sentir-se melhor.
- Obrigada, Martha. Acho que tem razo. Pouco depois, o pai entrou para v-la.
- Est melhor, minha filha? - perguntou, com a fisionomia preocupada.
- Agora sim, papai, mas na hora realmente doeu muito.
- No posso entender como foi acontecer uma coisa dessas!
- O que o duque disse?
- No tive oportunidade de falar com ele ainda. Ouvi dizer que os guardas pegaram um homem no bosque, que no deveria estar l.
Ophelia tinha muitas perguntas a fazer, para as quais sabia que o pai no teria respostas.
Depois de tecerem alguns comentrios sobre os acontecimentos do dia, o coronel, que estava sentado numa cadeira prxima  filha, levantou-se, dizendo que precisava 
ir trocar-se para o jantar.
- Acho aconselhvel que voc no saia daqui - recomendou ele -, embora eu lamente que perca o baile.
- Dependendo de como me sinta, quem sabe mais tarde deso um pouquinho.
-  prefervel no fazer extravagncias - aconselhou o coronel. - Bem, antes de descer para o jantar, passo por aqui novamente.
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No ntimo, Ophelia nutria a esperana de que o duque fosse v-la.
Desapontada e deprimida, comeu pouco do delicioso jantar que lhe foi servido.
Pouco depois, imaginando que todos j estivessem no salo de banquete, incluindo alguns outros convidados da vizinhana, seguiu a recomendao de Martha e foi para 
a cama.
De que adiantaria fazer um sacrifcio, vestir um de seus lindos vestidos e ir ao salo de baile se o duque no iria danar com ela?
As palavras do pai de que "nenhum ingls decente" a pediria em casamento remoam em sua cabea, amargurando-lhe o corao.
- Precisa de alguma coisa, srta. Ophelia? vou descer para jantar - disse Martha.
Ela teve vontade de dizer que a nica coisa que queria era ver o duque, mas respondeu:
- Nada. Obrigada, Martha. vou tentar dormir.
-  a melhor coisa que pode fazer.
A criada apagou todas as luzes, com exceo da que ficava  mesinha-de-cabeceira e saiu, deixando-a sozinha.
No conseguindo encontrar uma posio confortvel, deitada, ela se levantou um pouco, ficando meio sentada na cama.
Ocorreu-lhe ento que o duque talvez nem notasse sua ausncia no jantar e sentiu um aperto no corao.
"Eu o amo tanto! Hei de am-lo por toda a vida! "
Mais uma vez, ps-se a recapitular cada minuto que haviam estado juntos, as palavras que haviam dito um ao outro, o inexplicvel enlevo que sentiram ao beijar-se 
e a maravilhosa descoberta do amor.
O abrir da porta tirou-a de seus devaneios, e ela imaginou que Martha houvesse voltado antes do previsto.
Ouviu ento o inconfundvel som da chave trancando a fechadura. Voltou a cabea e, para sua alegria, viu o duque caminhando em sua direo.
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Soberbo em seu traje de gala, ele ostentava todas as suas condecoraes. Ophelia no tirou os olhos dos dele, ansiosa por conseguir desvendar o que lhe ia na alma.
Ele se aproximou e parou  beira da cama.
Ela imediatamente estendeu-lhe as mos, dizendo num tom suplicante:
- Perdoe-me... por favor, perdoe-me! Sei... que est zangado... mas quero faz-lo compreender... minhas razes.
Por um momento o duque no se moveu. Em seguida, porm, tomou as mos de Ophelia nas suas e disse:
- Tudo o que compreendo no momento  que voc salvou a minha vida, o que foi maravilhoso. Como conseguiu?
- No tive sequer tempo para pensar. Percebi que pretendiam mat-lo e que precisava, de alguma forma, impedir.
- E conseguiu.
O duque sentou-se na cama, mantendo as mos de Ophelia nas suas.
- Voc agiu com tanta percepo e rapidez, arriscando sua prpria vida!
O tom de voz do duque e o olhar que lanou a Ophelia foram to ternos que ela sentiu toda sua angstia se esvair. Apertou as mos dele, como se receasse perd-lo.
- No ousei sair de l de baixo enquanto os homens no comearam a beber.
- Quer dizer que os deixou... na sala de banquetes?
- Dei ordens a um dos criados para dizer que algum desejava me ver com urgncia e, assim, consegui escapar.
- Ah, eu desejava v-lo... desesperadamente!
- Sabia disso. Voc tem muitas explicaes para me dar, minha querida.
- No vai ficar zangado comigo?
- Como posso, depois de seu feito?
- Mas ficou, no ? Quando descobriu quem eu era...
- Zangadssimo! - admitiu ele. - Nunca me pareceu possvel que voc fosse to-somente a filha de um 123
bibliotecrio. Mas, quando conversei com lady Grayson, achei que era coincidncia demais existirem duas jovens, da mesma idade, com o mesmo nome, extremamente bonitas, 
e com olhos azuis que chegavam ao violeta. Ophelia deu um suspiro profundo.
- S quis saber como voc era. Meu pai me disse que nenhum ingls decente se casaria comigo. Eu no podia suportar a ideia de que se casassem comigo somente... por 
dinheiro.
O duque no teceu comentrio algum.
Sentindo um grande alvio por ter desabafado o que vinha lhe amargurando o corao h algum tempo, Ophelia apertou a mo do duque e choramingou:
- Voc se casa comigo? Por favor... case-se comigo. Se recusar... s quero morrer, pois no posso viver sem voc.
- Tem certeza disso?
- Voc sabe que tenho. Eu o amo muito e nunca senti uma agonia to grande, nem fui to infeliz como desde que cheguei aqui... e voc no falou comigo, nem sequer 
me olhou.
- Talvez eu tenha sido um pouco cruel, mas eu havia me apaixonado loucamente por uma encantadora jovem que descobrira os livros que eu tanto desejava para levantar 
algum dinheiro e sonhava com a ajuda dela, para mais tarde fazer de Gore um exemplo de prosperidade.
Fez-se uma pequena pausa e Ophelia disse:
- Ela ainda quer ajud-lo... se a quiser. Achando que o duque hesitava, Ophelia exasperou-se:
- Por favor... esquea que eu tenho qualquer outra coisa para lhe dar, exceto meu corao. Acho que vale mais do que tudo, no ?
- A nica coisa de real importncia para mim, Ophelia,  seu corao, alm de voc fazer parte de mim, meu amor. Sem voc, no sou mais um ser completo.
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Mal acabou de falar, os lbios do duque colaram-se aos seus.
Ele a beijou com toda ternura e delicadeza, como se temesse machuc-la.
Uma vez mais, ela se sentiu transportada ao cu, com maior enlevo ainda, depois de pensar que o havia perdido.
Quando o duque separou ligeiramente os lbios dos dela, Ophelia disse, ansiosa:
- Voc se casa comigo? Diga que... sim! O duque sorriu.
- Acho que quem devia fazer essa pergunta era eu! Mas oua, querida, creio que ns dois temos certeza de que isso precisa acontecer. Nosso amor  grande demais para 
lutarmos contra ele. Nasceu desde o primeiro momento em que nos vimos...
- Na janela da biblioteca!
- Quando voc. estava me enganando, fingindo ser outra pessoa! Como pde fazer uma travessura dessas?
- J lhe disse... precisava saber como voc era antes de vir com meu pai a Gore.
O duque suspirou.
- Parece incrvel que eu estava tentando desesperadamente achar um meio de evitar um casamento com uma
mulher rica.
Ophelia passou os braos pelo pescoo dele,
- No podemos esquecer de meu dinheiro? Como minha me, sempre detestei ser mais rica do que os outros.
- Creio que se usarmos o dinheiro para ajudar as pessoas e fazer de Gore parte da glria da Inglaterra, ele no nos criar problemas pessoais.
- Tem certeza disso? - indagou Ophelia, olhando-o nos olhos.
A expresso de amor que encontrou neles no poderia ser maior, por isso no hesitou em dizer:
- No vai ser mais meu dinheiro... ou seu, mas nosso,
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porque no sou mais "eu", mas parte de voc, como voc  parte de mim.
- Como pensamos e sentimos da mesma maneira, vamos procurar esquecer de tudo mais, a no ser ns dois e nossa felicidade.
Ele deu uma pequena gargalhada e acrescentou:
- Sei que vou ser considerado um "caa-dotes" e que vo dizer que voc trocou seus milhes por um ttulo, mas pouco importa o que as pessoas pensem, o que importa 
 que nos amamos.
- Era exatamente isso que eu gostaria de ouvir de voc! Ah, Sandor querido! S que voc precisa ter cuidado. Imagine se o capito Goring tentar mat-lo novamente?
- Sabia que foi Harry?
- Claro que sabia! Eu no o vi, mas ele era a nica pessoa que lucraria com sua morte.
- No se preocupe. J tomei as providncias para que Harry no se atreva a entrar aqui outra vez.
- Como pode ter certeza de que no o far?
- Depois de capturado no bosque pelos guardas, ele foi trazido para c. Tentou pular fora da situao com uma poro de mentiras e eu lhe ofereci uma escolha.
- Que escolha?
- Ele pode viver em Paris, ou em qualquer outro lugar que deseje, e eu lhe garanto uma generosa contribuio desde que no volte  Inglaterra, ou permanece aqui 
e eu conto a todos, inclusive ao prncipe, que ele tentou me matar.
- Ento ele aceitou ir para o exterior?
- Lgico! Alm de precisar do dinheiro, se ficasse, seria marginalizado por todos.
O duque esboou um sorriso tmido.
- Receio, querida, que foi seu dinheiro que ofereci a ele.
- Ele pode ficar com cada centavo meu, contanto que no signifique perigo para voc!
O duque deu um sorriso de pura felicidade.
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- Fiquei to apavorada que ele continuasse tentando... mat-lo!
- com voc ao meu lado, de dia e de noite, tenho certeza de que mal algum vai me acontecer.
Ophelia ofereceu os lbios ao duque, e, em resposta, ele a beijou com paixo.
Somente quando tentou abra-la um pouco mais forte e sentiu-a recuar por causa da dor no pescoo, soltou-a ligeiramente, dizendo consternado:
- Perdoe-me, querida, estou sendo egosta e a machuquei.  que voc me deixa louco de excitao!
- Eu quero... excit-lo. Voc precisa me ensinar a... faz-lo.
- Acho que no vai precisar de muitas lies - disse o duque sorrindo. - Bem, querida, preciso deix-la agora, no s porque voc me excita muito, mas porque, se 
ficar, vou compromet-la aos olhos da "sociedade".
Ophelia riu.
- Ficariam chocados se suspeitassem que, todas as vezes que voc me beijou, eu estava usando apenas camisola! E se soubessem que me hospedei aqui sem dama de companhia?
- Ningum deve desconfiar disso - recomendou o duque. - Creio que, se  que existe um bibliotecrio de verdade, ele seja de confiana.
- Ele vir na segunda-feira. Fique tranquilo, o sr. Baron no ir nos trair. Alm disso, ele est interessado mesmo  nos livros.
Ela fez uma pequena pausa e continuou, hesitante:
- Eu me pergunto... se realmente quer vender os livros... se no poderia compr-los. Acho-os muito preciosos... porque foram eles que... nos uniram.
- Juntos resolveremos o que fazer com eles e com tudo o mais. Mas agora, meu amor, preciso realmente ir. Deus sabe o quanto me custa. Gostaria de ficar com voc 
por horas, ou melhor, a noite toda, admirando sua beleza, 127
beijando-a desde essa sua linda cabecinha loira at a ponta de seus pezinhos.
Havia tamanha paixo na voz do duque e tal ardor em seus olhos que Ophelia enlaou-o novamente.
- Eu o amo! Eu o adoro! - repetiu, apaixonada. - Por favor, vamos nos casar o mais breve... possvel.
- Assim que seu pai consentir - murmurou o duque, pressionando com fora os lbios contra os dela.
Mais uma vez ento Ophelia sentiu-se transportada ao cu atravs de um arco-ris.
Esquecida de tudo o mais, a no ser da felicidade que sentia por estar nos braos do amado, relutou em se afastar dele.
- Tenho de ir, querida - disse o duque, beijando-a de leve mais uma vez e levantndo-se. - Fique pensando em mim. Sonhe comigo. Amanh daremos um jeito de estarmos 
sozinhos novamente para que eu possa t-la em meus braos.
Antes que Ophelia pudesse responder, o duque atravessou o quarto, destrancou a porta e saiu.
Ela ouviu os passos dele afastando-se no corredor.
Em seus lbios havia ficado o calor dos beijos dele. Em seu corao, a deliciosa sensao de ser amada...
Emocionada, sussurrou baixinho repetidas vezes:
- Obrigada, meu Deus, obrigada... obrigada!
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QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos 
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri 
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso 
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara 
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por 
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Uma histria inesquecvel de amor!
Cano da Esccia
Assim que a carruagem atravessou os imensos portes de ferro, Sona teve a impresso de entrar num cenrio de contos de fadas. A sua frente, o castelo medieval dos 
McChad guardava o mistrio e a magia que se insinuavam nas canes executadas pelas gaitas de fole. Encantada pela beleza da Esccia, ela mal imaginava que logo 
soaria um sinistro rufar de tambores... O sinal que anunciava a morte do homem que ela amava!
Fim
